6 de abr de 2006

Pânico

A primeira reação foi pular para cima de uma das cadeiras da sala de jantar, quando o camundongo passou por mim em louca disparada, rumo à porta da rua. Ao mesmo tempo, gritei. O grito faria bonito em qualquer filme de terror. Era muito jovem, naquela ocasião.Depois pensei no ridículo da situação, eu em cima da cadeira, com o bebê no colo, gritando. Nunca mais repeti a cena.
Pessoas contam que têm horror à cadeira do dentista. Quando não dá para fugir, fazem escândalos, atrapalhando o desempenho do profissional. Outros contam que só conseguem viajar de avião se amortecerem seus sentidos com repetidas doses de uísque durante todo o vôo.As histórias de pânico são as mais variadas, mas há uma nota comum de jactância em quase todas. Como se, no íntimo, a pessoa se sentisse diferenciada e importante por ter tal reação, obrigando outrem a tomar as medidas necessárias para solucionar o impasse. Como eu, gritando em cima da cadeira.
Às vezes, é difícil conter a primeira reação. Depois, seria bom aprofundar o tema. No mínimo, para não fazer papel ridículo.
O estudo da ansiedade e suas causas levou cientistas das Universidades de Columbia e Harvard, do Instituto Médico Howard Hughes e da Faculdade de Medicina Albert Einstein a desenvolverem valiosa pesquisa com camundongos,na qual afirmam ter descoberto o gene do medo, ao analisar tecidos do cérebro. De índole prudente, os animais se tornavam audaciosos e desejosos de conhecer novos territórios, indiferentes aos ruídos conhecidos como perigosos, ao terem extirpada uma minúscula região do cérebro, em forma de ameixa, observada em pesquisas anteriores como especialmente ativa, quando animais e humanos apresentavam estados de medo e ansiedade. Segundo a observação dos pesquisadores, a proteína, encontrada nessa região em alta dosagem e dificilmente localizada em outra região do cérebro, é a responsável pelo medo.
Com a remoção desse gene, os cientistas produziram uma linhagem de camundongos que se tornaram adultos normais, apenas mais corajosos. A partir dessas descobertas, novas drogas poderão ser desenvolvidas para o tratamento de diversas disfunções, como as crises de ansiedade e o medo paralisante.
Mas pesquisas no campo científico levam anos para apresentar resultados confiáveis e enquanto isso precisamos continuar vivendo. Apesar de, algumas vezes, ser difícil conter a primeira reação, depois seria bom aprofundar o tema e tentar desvendar as motivações. No mínimo, para não fazer papel ridículo. Quando começamos a treinar o equilíbrio emocional, porque conseguimos nos dar conta do absurdo de algumas reações pessoais, logo extrapolamos para outras áreas de atuação. De repente, a visão de camundongos, baratas, aranhas ou cobras já não é o pior que nos pode acontecer. Sequer a cadeira do dentista ou o avião. Na atuação social ou política, no local de trabalho, com os filhos, entre os casais e entre amigos, a todo momento o nosso emocional é submetido a duras provas. Seguido dá aquela vontade de pular para cima da primeira cadeira e começar a gritar. É melhor inspirar fundo e agir com toda a calma, como se fôssemos adultos perfeitamente equilibrados. Com algum treino, a gente até convence. Com mais treino, aprende.

Um comentário:

Ruthe disse...

Lendo o artigo "Pânico", lembrei de várias reações minhas - muito alarde por tão pouco. Realmente o equilíbrio emocional deve ser bem reconsiderado, para que não se faça "papelão"!
Adorei e pretendo somente sair do sério, quando a situação for grave...
Ruthe