29 de jul de 2006

O livro é caro

Colocada atrás do balcão da pequena loja de aviamentos para costura, enquanto estudava a melhor forma de conserto na alça solta da bolsa de viagem, dona Maria me surpreendeu com a pergunta:
- Teu livro já está na Biblioteca Pública?

Devo ter feito ar de quem não entendeu, pois ela continuou: _ Estou esperando que chegue lá, para ler. Sempre procuro as crônicas no jornal, mas livro não dá pra comprar, com o salário de aposentada.

Sua expectativa, ao mesmo tempo que massageou o ego, me fez pensar. De um lado, os escritores se queixam das vendas escassas; do outro, os leitores reclamam do preço dos livros, proibitivo para o bolso da maioria da população brasileira. “O livro é caro”,reclamamos.

Várias situações contribuem para esse impasse. Segundo levantamento feito pela Câmara Brasileira do Livro, apenas 25% dos brasileiros entre 15 e 64 anos têm habilidade plena de leitura, com capacidade de entender o conteúdo do texto. Essa, inclusive, deve ser uma das razões para que somente 30% dos brasileiros alfabetizados cultivem o hábito de ler.

Dentro desse contexto, não é de admirar que a média anual de compras dos brasileiros seja de 1,2 livros.

Por outro lado, só no ano de 2004, foram produzidos no Brasil 34.858 títulos, em mais de trezentos vinte milhões de edições. É muito livro, para uma população com pouco poder aquisitivo e sem o costume de ler.

É um círculo vicioso: o preço do livro poderia ser menor, se as tiragens fossem maiores. Mas a maioria dos municípios brasileiros não possui sequer uma livraria e as existentes, sem desejar correr riscos, solicitam às distribuidoras somente os títulos dos autores já consagrados. Os outros, sabendo da dificuldade que encontrarão na distribuição, fazem tiragens cada vez mais tímidas. Dessa forma, o valor do livro aumenta, a venda se torna mais difícil e o círculo se fecha.
Para a situação mudar, seriam necessárias políticas de inserção social e maior investimento na educação, atitudes que os governantes não parecem julgar prioritárias. Nesse caso, mais uma vez, cabe a nós, cidadãos comuns, a procura de alternativas.

Os jornais cumprem importante papel, inserindo no hábito da leitura pessoas sem maior tempo, interesse ou condição financeira para comprarem um livro. Homens e mulheres idealistas criam bibliotecas e academias literárias. Nós, escritores, temos que semear livros para colher leitores. Colocá-los à venda, com certeza, mas também distribuí-los pelas bibliotecas públicas e escolas, para formar novos apaixonados pela leitura.

Sempre que entro em grandes livrarias, com as prateleiras atulhadas de clássicos e lançamentos, sinto uma sensação de humildade e pequenez, misturada com desânimo e vontade de entregar os pontos. Penso: “Por que as pessoas continuam escrevendo, se tudo já foi dito? Por que eu escrevo?”.

Hoje entendi: escrevo para a dona Maria, para a Maria do Carmo, para o Antônio e para tantos que nem sei quem são, leitores que não teria, sem a divulgação proporcionada pelo jornal. Gente anônima, que merece respeito, por entenderem que o livro, mais que caro, é precioso.

3 comentários:

cris disse...

Adorei esta crônica a respeito da dificuldade de acesso à cultura pela maior parte da população brasileira...
beijo,
Cris

Sergio Grigoletto disse...

Marta!

É para isso que vivo e, enquanto vivo, para isso viverei.

Abraços!

Sérgio

Ruthe disse...

Marta!
Os livros não são caros, as pessoas é que ganham pouco!
As vezes, com um leitura madura, podemos resolver muitos problemas, e assim não precisamos recorrer a tratamentos longos ou infrutíferos.

Tenho dito e assino embaixo
Ruthe