26 de jul de 2006

Sevilha

À tardinha, chegamos a Sevilha, único porto fluvial da Espanha. Como é domingo, o centro da cidade está calmo e encontramos com facilidade o Hotel Inglaterra, reservado no Brasil. A primeira medida é guardar o automóvel alugado em Lisboa, pois pretendemos utilizá-lo novamente só para a viagem de retorno. Se houvesse um trem ou ônibus direto de Lisboa a Sevilha, teríamos preferido, mas as informações foram de que precisaríamos ir até Barcelona, para voltar à Sevilha. De todo modo, foi bom percorrer por conta própria o caminho desde Lisboa.

Na primeira noite na capital andaluza, provamos as tapas, tábua de frios preparada à nossa frente, com frutos do mar em diferentes molhos, azeitonas e alcaparras, tudo retirado de barricas de madeira expostas sobre o balcão, além do arroz em pequenas tigelas. Depois, assistimos à apresentação da dança flamenga e saímos a caminhar sem receio pelas ruas iluminadas. Impossível ignorar a comparação com o Brasil, onde há muito não podemos nos permitir tal prazer.

Na manhã seguinte, continuo o turismo em Sevilha, com um passeio no ônibus aberto com saída da Torre Del Oro, ponto de onde Colombo partiu para descobrir a América. Muralha defensiva, construída pelos mouros como mirante, em 1220, antigamente ela possuía uma torre-irmã do outro lado do rio, com uma corrente de metal esticada entre ambas, para impedir o avanço das embarcações hostis. É emocionante este encontro com o nosso passado, o remexer nas lembranças escolares. Teria sido tão mais fácil aprender, se os professores houvessem acrescentado esses detalhes saborosos à enxurrada de nomes e datas com que nos atordoaram! Mas deixei há muito os bancos escolares; provavelmente, as crianças de hoje recebem um ensino diferenciado. Mesmo porque ninguém as seguraria, se igual continuasse, sendo como são, questionadoras e conhecedoras dos seus direitos.

Continuo a perambulação, visitando a imponente Catedral gótica, a terceira cristã em tamanho, após a São Pedro do Vaticano e a São Paulo de Londres. Levo cerca de duas horas na visitação, detendo-me no altar central, que dizem conter duas toneladas de ouro; passo pelo túmulo de Cristóvão Colombo, onde a moça que fotografa manifesta suas dúvidas: fala que o túmulo existe também em sua terra natal, Santo Domingo. Depois, por uma extenuante rampa interior, subo a torre da Giralda, antigo minarete da mesquita, transformado em campanário da Catedral cristã. Até a plataforma, de onde se vislumbra uma completa visão da cidade, são 78 metros de altura; o acesso à parte superior, a cerca de 98 metros, não é permitido. Em cada andar, encontramos a turma que desce e eles nos estimulam a não desistir: vale a pena o esforço - como repetiremos aos outros, na volta.

No passeio de carruagem, no trote gracioso do garboso cavalo tordilho, percorro o parque Maria Luisa e o local da Feira Mundial de 1929, com os prédios dos diversos países muito bem conservados e hoje com outras utilizações. Logo após, passeando a esmo pelo centro da cidade, deparo com as escavações das ruínas romanas, descobertas na preparação do terreno para o estacionamento de automóveis. Enquanto saboreio um café, sou convidada a conhecer o pitoresco Bairro Santa Cruz, antigo reduto judeu. Preciso tomar um fôlego, antes de caminhar até lá.

Recuperada, caminho pelas ruas estreitas, cheias de calor humano, flores se debruçando por sobre as floreiras coloridas a encherem as sacadas. Através dos lindos portais de ferro trabalhado, sugestivamente abertos, vislumbro os pátios floridos e mobiliados das residências familiares - como convite ao forasteiro para usufruir a hospitalidade da generosa alma sevilhana.

Na continuação da caminhada, dirijo-me ao centro comercial. O comércio em Sevilha tem um horário diferenciado, para garantir a costumeira sesta: das nove as catorze e das dezessete às vinte horas e trinta minutos. Mas continuo com o propósito de não fazer compras, num raro rasgo de bom senso, talvez motivado pelos preços exorbitantes e pela desvalorização da nossa moeda. Contudo, não resisto às prendas locais. Impossível vir à Espanha e não levar seus lindos xales de seda pura, bordados à mão em linha da mesma cor ou em vários tons; da mesma forma, os coloridos leques, preços adequados a todos os bolsos, conforme a qualidade do material. Mas logo volto à primitiva idéia de reservar todas as energias para a absorção do espírito sevilhano.

Na praça em frente ao nosso hotel, reúnem-se as famílias, à tardinha: enquanto as crianças brincam e jogam bola, os adultos conversam, num antigo costume de cidade do interior. Lembro as praças de Pelotas e o tempo longínquo em que também agíamos assim. Ou vejo encontros de mãe e filha, ternos abraços, a mais jovem empurrando o carrinho do bebê e ambas se dirigindo ao café da esquina, para ocuparem uma das mesas na calçada e colocarem a conversa em dia. No mesmo café onde eu sento, numa pausa da caminhada, reparando na executiva empoleirada no banco alto, à frente do balcão. Aflita com a espera, olha o relógio e imagino um namorado retardatário, no meu hábito de desenrolar um filme imaginário, a partir de qualquer cena do cotidiano. Mas o seu olhar se ilumina e ela levanta do assento, à chegada dos pais: após o abraço, começa a falar e a gesticular sem interrupção, conseguidos dois ouvintes perfeitos, mudos e interessados. Ela continua falando, quando me afasto, com a sensação de estar em casa.

Em diferentes dias, provo os “mistos variados”, diversos tipos de peixes fritos, e a paella _ essa no almoço, até às dezesseis horas, conforme recomendação dos sevilhanos, estarrecidos de que pretendêssemos saboreá-la à noite - com gaspacho, a sopa gelada, e sangria. Como é o prato do dia, tudo incluído, sai por nove euros e meio por pessoa.

No quarto dia, visito o palácio real, El Alcazar, encravado no centro de Sevilha, protegido por muralhas. O início da construção deste enorme conjunto arquitetônico data do século X, mas ele foi ampliado e modificado através do tempo. Conserva, no entanto, sua característica de Casa Real, pois o andar superior permanece como a residência do monarca espanhol e seu séqüito, quando em visita à cidade. Perco-me por enormes e luxuosos salões, nas paredes tapeçarias descomunais, tetos cobertos de pinturas; piso em imensos tapetes bordados à mão e chego a portais abertos para diferentes e amplos jardins. Exaurida de tanta beleza e opulência, despeço-me da Espanha.

3 comentários:

Ruthe disse...

Marta!
Imagino, ao ler, esta crônica, a descomunal beleza do passeio!É um País imperdível, para quem vai à Europa.
Preciso,urgentemente perder o "medo" de andar em avião...

Ruthe

Anônimo disse...

Bonjour, martasousacosta.blogspot.com!
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Anônimo disse...

a sua narratva trouxe-me uma linda recordação estive em Sevilha e com as suas palavras meu pensamento voou e fui para lá. Obrigada
vera