2 de ago de 2006

Mais um pouco de Lisboa

Após a breve permanência em Sevilha, voltamos a Lisboa e ao Hotel Diplomático, já nosso conhecido. A unificação do mercado europeu facilitou a rotina dos turistas: além de ser a utilizada a mesma moeda, o euro, também não é necessária a apresentação do passaporte ou vistoria na bagagem, em cada passagem da fronteira. Situação muito diferente do Mercosul, que conservou toda a burocracia.

Entramos na cidade pela Ponte 25 de abril. Antes denominada Salazar, como tributo ao ditador, que a construiu em 1966, ela teve seu nome modificado para comemorar a revolução que restaurou a democracia em Portugal, em 1974.

Bem localizado, o hotel fica próximo ao maior parque do centro da cidade, Eduardo VII, em homenagem ao rei da Inglaterra _ na continuação da Avenida da Liberdade. O cálido sol da manhã de outono sugere tranqüila caminhada e logo aceitamos a sugestão, seguindo em passos lentos, olhar extasiado para os extensos gramados em declive e a exuberante vegetação, além das plantas exóticas cultivadas nas estufas fria e quente.

Na extremidade do parque, o banco de madeira foi colocado de maneira estratégica para proporcionar, no descanso, a ampla visão da cidade: o majestoso castelo de São Jorge, à esquerda; a praça do Rossio, lá embaixo.Visão que divido com a estátua do Marquês de Pombal, ali colocada de propósito, para que ele possa apreciar o seu belo trabalho de restauração do centro de Lisboa, após a destruição causada pelo terremoto de 1755.

Próximas ao banco onde estou sentada, logo estacionam três vans, de onde descem três casais, que começam a estender lindas toalhas dos mais variados tamanhos, bordadas a mão, bem como guardanapos e trilhos de mesa. Não resisto e me aproximo, para observar de perto os trabalhos. Uma alegre portuguesa me informa que vêm da Ilha da Madeira, mas os preços convidativos me fazem duvidar. Contudo, são lindas as toalhas e resolvo ceder ao meu impulso: compro duas, que servirão como lembrança desse momento.

Depois, ao contornar o parque, sempre caminhando, descubro estar muito próxima do magazine El Corte Inglês e para lá me dirijo. No café, distraída, peço um cortado, como se ainda estivesse na Espanha, e a pequena xícara vem com o mínimo de conteúdo, mal cobrindo o fundo da mesma. A amável portuguesa, sentada na banqueta ao meu lado, nota o meu desconforto e explica que, se desejo um café como o cortado uruguaio, devo pedir um “garoto taça completa”; se não, a xícara vem com um sexto do conteúdo. Depois, olha o fundo da minha xícara e ri: de qualquer forma, exageraram. Mas a atendente compreende o equívoco e traz outra xícara.

Mais tarde, palmilhamos tranqüilamente as velhas ruas, subimos ladeiras, embrenhamo-nos por ruelas, descobrindo o coração da cidade. Identificamos nossas raízes, entendemos a origem de certos termos do nosso vocabulário, alguns estranhos aos outros estados brasileiros, fruto da forte colonização portuguesa no extremo sul do país.

No domingo, um táxi nos leva ao Castelo de São Jorge, antiga residência dos reis portugueses, de onde também temos uma bela visão da cidade. Depois descemos a pé as ruas estreitas e sinuosas do bairro da Alfama, com pessoas debruçadas nas janelas a conversar com os vizinhos na casa em frente, e a pitoresca exposição dos varais cheios de roupas coloridas. Chego ao comércio elegante da rua Augusta, no bairro da Baixa, e caminho até a praça do Rossio, coração comercial da cidade.

Nos dias seguintes, pegarei o metrô para diferentes pontos turísticos; embarcarei no bonde elétrico, para ir até a antiga cervejaria, transformada em restaurante; subirei pelo elevador da loja Fnac até o Bairro Alto, onde cumprimentarei a estátua de Fernando Pessoa, em tamanho original, sentado à frente do Café A Brasileira; descerei pela escada rolante dentro da loja e talvez me apresse um pouco, rumo ao pequeno restaurante Vossa Mercê, além das ruas da Prata e do Ouro, atendido pelo simpático proprietário. Lá, comerei o esplêndido bacalhau ao Braz feito por sua mulher.

Como criança sôfrega, desejosa de tudo usufruir, volto ao bairro Belém, para saborear novamente os famosos pastéis de nata. Ainda não sei, mas deles ficarei cativa e procurarei o seu sabor, cada vez que voltar a encontrá-los em outras localidades.

Logo subirei ao alto da torre, construída como fortaleza no meio do Tejo e hoje em sua margem, ponto de onde partiram os descobridores portugueses; caminharei até o Padrão dos Descobrimentos, monumento construído por Salazar, em homenagem aos navegadores; visitarei o Museu dos Coches, exposição das belas carruagens do passado.

Há muito a ver, nesta bela metrópole de largas avenidas, prédios e monumentos seculares, terra de lindas mulheres. Essas que parecem _ caminhando rápidas pelas ruas, em trajes modernos, nas mãos as pastas executivas _ desejar acompanhar Lisboa em sua corrida para garantir um lugar no futuro.

Caminho por suas ruas, admirada de que seja tão diferente de tudo o que imaginei. Muito mais linda, naturalmente. Talvez tivesse uma idéia preconceituosa, imaginando uma cidade parada no tempo. Ao contrário, eu a descobri pujante, cheia de vida e inserida na modernidade, ao mesmo tempo em que conserva a sua elegância tradicional.
Antes que me aperceba que o tempo passou rápido demais, chega o momento de deixar Lisboa e embarcar no navio, iniciando o cruzeiro de dezessete dias rumo ao Brasil. Na boca, um gosto de “quero mais”, no peito o aperto da tristeza por deixar esta terra hospitaleira, onde o antigo e o moderno convivem em harmonia.

Levo a certeza de que ficou muito por conhecer. Mas, sendo como sou, prefiro ver menos e melhor. Coisas da idade? Quando jovem, passava correndo por tudo, numa maratona turística, e depois não conseguia lembrar onde tinha visto o quê. Agora, digo a mim mesma que voltarei, para me confortar pelo que não pude ver.

Crônica publicada em junho de 2004, como Impressões de Viagem IV

2 comentários:

Sergio disse...

Marta!

Uma das benesses coletivas que já observei em amigos que viajaram pelo Velho Mundo, foi a de conscientização histórica, de preservação patrimonial principalmente. Entendem que é bem possível a convivência do antigo com a modernidade.

Ruthe disse...

Marta!
Todos os amigos que foram visitar Portugal,ficaram maravilhados com tudo que viram, com as pessoas e quitutes! Também foram unânimes,ao dizerem que precisavam voltar, porque foi pouco tempo!

Beijos Ruthe