4 de nov de 2006

A melhor dica

Ela me puxou pela mão e levou até o quarto de dormir, abriu uma gaveta da grande cômoda antiga e mostrou o seu tesouro: vinte casaquinhos de lã para recém-nascidos, nas mais diversas cores, alguns com listas verdes, azuis ou amarelas, costurado a cada um o par de sapatinhos correspondente.

_ Tricotei todos esses em dois meses – disse, para meu espanto.

Pouco antes, na sala, ela lembrava que há muito não saía de casa, pois há anos sente um zumbido desagradável e constante no ouvido, tendo experimentado diferentes tratamentos, sem que nenhum lhe devolvesse a normalidade. Neste ano, principalmente, a situação havia piorado, ao ponto de impedi-la de tricotar os casaquinhos que, através da Associação das Mães Cristãs, seriam doados à Santa Casa, completando os enxovais de dezenas de recém-nascidos cujas mães chegam ao hospital sem nenhuma previsão de roupas para eles.

Aconteceu, porém, que há dois meses, ao experimentar nova medicação, de repente o zumbido sumiu. Rápida, ela foi fazer o que mais desejava: tricotar os casaquinhos e sapatinhos.

À saída do apartamento ensolarado, lembrei do filósofo Lou Marinoff, de quem já falei, em outra crônica. No seu livro “Mais Platão, menos Prozac” _ que estou lendo e relendo, na maior calma _ ele fala sobre depressão, o mal-estar existencial, quando a pessoa se sente sem ânimo e propósito na vida. Diz que a causa mais comum para a depressão é o tédio.

Humanos e animais não sentem tédio em épocas de crise, quando o propósito é preservar-se e vencer os desafios. Animais selvagens enfrentam situações diárias de estresse, em busca de alimento e da sobrevivência, o que impossibilita o tédio, sentido apenas no cativeiro. No mundo civilizado, embora milhões de pessoas ainda lutem por um pedaço de pão, outros exercem relativo controle sobre o seu ambiente. Isso que, a princípio, parece bom, com o tempo pode se tornar penoso, se conseguimos tudo o que desejamos e paramos de desejar. É quando surge o tédio e a falta de propósito, precursores da depressão.

Para vencê-los, Lou Marinoff sugere alguns passos. Entre esses, procurar a natureza, respirar ar puro, uma simples caminhada no parque já serve. Mas o mais importante foi a dica: ajude outra pessoa, envolva-se com as dificuldades e problemas dela, fuja do seu próprio cativeiro.

Com a sabedoria que o tempo lhe deu, a senhora desta história não precisou ler livro algum, para saber o remédio adequado para enfrentar o tédio e evitar a depressão: assim que se sentiu melhor, apressou-se a realizar o que considera a sua missão.

Poderia se queixar da vida, da porção amarga que lhe coube. Preferiu se interessar pelas pessoas à volta, esforçar-se para compreender e aceitar as novas situações que se apresentam. Aos oitenta e sete anos, sabe como dar sentido à sua vida, tornando-se útil e presente. Compreendeu que “lidar com o mundo do outro a ajudaria a se livrar do próprio cativeiro”, como ainda ensina o filósofo.

2 comentários:

Ruthe disse...

Marta!
Tédio - palavra que não deveria existir!Dizem causadora de mil doenças...
Mas existe e como! A melhor coisa a fazer é se ocupar com algo que dê prazer,e que não envolva parceiros, nem prêmios nem castigos,nem cobranças.Trabalhar para uma causa nobre, sem esquecer de si, seria uma ótma opção!

Beijos

Camila G. dos Santos disse...

Marta!
Esse texto realmente diz tudo..não podemos ficar somente dentro do nosso cativeiro. Temos que conhecer outros para que o tédio não tome conta da nossa alma.
Devemos sorrir para a vida!!!:)

grande abraço...

Camila G. dos Santos