12 de nov de 2006

O ponto de partida da generosidade

A mulher, na faixa dos quarenta anos, falava ao celular sem parar, desmarcando reuniões, agendando compromissos, sempre com a explicação de que se atrasara, por ter resolvido acompanhar o pai à sessão de quimioterapia, já que há seis meses não conversava com o médico. Ao seu lado, cada vez mais sumido nas roupas folgadas, um gorro de lã tentando disfarçar a falta de cabelos, o velho pai quase pedia desculpas por ainda existir. Olhando-os, senti pena. Dos dois.

No mesmo recinto, maridos e mulheres se acompanhavam, bem como outros pais e filhos, amigos e amigas, na procissão solidária que, dia após dia, freqüenta os corredores de todos os hospitais. A exceção era a mulher ao celular. Por isso não é possível concordar, quando alguém se queixa de que a generosidade está em desuso. Às vezes ela até faz falta, é bem verdade, mas ainda se encontra bastante, em cada canto.

Não falo da generosidade fácil de dividir o que nos sobra, embora esta seja importante e tenha sua razão de ser. Falo da generosidade mais profunda, aquela que, em algumas circunstâncias, é espontânea, como proporcionar a alguém o prazer de ser elogiado; em outras, causa tanta dor, que só com esforço conseguimos exercê-la.
Generosidade é calar sobre as suas vitórias, para não magoar o amigo que está em baixa. E se alegrar com os feitos do outro, quando tudo nos saiu errado. Ser capaz de festejar a formatura do amigo, a conclusão do mestrado, o doutorado, quando o nosso currículo foi interrompido lá atrás, por quaisquer razões. Incentivá-lo para que dê o melhor de si, ajudando-o a acreditar em si e reconhecer o seu potencial, ainda que para nós as perspectivas sejam escassas.

É aplaudir o sucesso dos jovens e as suas conquistas, permitir que se divirtam com as velhas histórias, sem falar que um dia estarão repetindo as trapalhadas de que hoje acham graça.

Generosidade é buscar o neto na pré-escola e fazer disso razão de alegria, em lugar de explicar que só veio porque a nora, como sempre, estava ocupada demais para pegar o próprio filho. É olhar o pudim desmoronado e não aproveitar para passar por poderosa, mas contar a verdade: também teve tais transtornos, vezes sem conta.
Generosidade é acompanhar a mãe ou o pai idoso à sessão de quimioterapia e conseguir lhe transmitir a impressão de que não tinha nada melhor para fazer naquele dia. É ver o filho superar o pai, em muitos campos, e sentir orgulho, em lugar de ciúmes e aborrecimento.

Contudo, para ter real valor, a generosidade precisa ser realizada na surdina, sem holofotes nem espera de aplausos. Talvez seja essa a razão de as pessoas julgarem que saiu de moda, quando ela apenas se comporta do modo certo, discreta como deve ser, sem jactância ou exibicionismo.

E talvez seja esse também o paradoxo da generosidade: exigir, ao mesmo tempo, humildade e elevada auto-estima. Porque somente pessoas com auto-estima elevada conseguem desenvolver a verdadeira generosidade. Decerto é assim que treinam: primeiro, sendo generosas consigo mesmas. Depois, com os mais próximos: marido, filho, amigo, funcionário. Essa etapa é difícil, demanda tempo e esforço, por isso alguns preferem pulá-la e passar logo para a seguinte: demonstração da generosidade com os estranhos. Aí acontece o inverso: como naqueles jogos de dados infantis, o jogador é obrigado a retroceder várias casas, quando não volta ao ponto de partida, para entender melhor o jogo.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
O tema Generosidade, por vezes é muito complexo. Nos dedicamos a uma causa ou à pessoas e na maior parte das vezes, somos mal interpretadas, como querendo alguma coisa em troca.
" Fazer o bem, sem olhar a quem", diz o ditado. Devemos levá-lo adiante, sem esmorecer, se o nosso propósito é leal, mas sabendo que na maioria das vezes, não seremos entendidas.

Beijos