19 de nov de 2006

O que vão pensar?

No meio da noite, acordei de repente. Antes que entendesse onde estava e porque acordara, a palavra “expectativa” me veio à mente. Imediatamente, a segunda palavra, “perspectiva”, atacou. Essa trazia reforços: o parágrafo inteiro da última crônica enviada para publicação. As duas palavras ficaram brigando na minha cabeça, uma tentando se sobrepor à outra, ambas buscando o apoio do parágrafo.

Num instante de pânico, entendi: havia empregado a palavra errada e agora não havia como corrigir, a crônica já seguira o seu destino. Aproveitando o descuido, as duas palavras se uniram, nocautearam o sono e ficaram se alternando com incômodas perguntas, dispostas a tumultuar: perspectiva ou expectativa? Poderiam ser sinônimos? Será que a palavra usada estava mal colocada mesmo? Porque a dúvida não ocorreu antes?

Bem, essa resposta eu tinha: a culpa não era totalmente minha, mas dos “brancos” causados pela quimioterapia. Embora seja das criaturas privilegiadas a quem poucos transtornos ela causou, não escapei de um grande cansaço, logo após cada uma. Quando começava a achar que estava ficando ótima, era tempo de nova aplicação e lá vinha tudo de novo. Até aí tudo bem: quando se está na chuva, é comum se molhar. O chato mesmo era o “branco” nas idéias, a exaustão mental, a falta de ânimo para ler um livro, forças insuficientes para manter um diálogo.

Lá ficava eu, meio deitada na poltrona de veludo azul, tentando me antenar, perdida numa nuvem branca. Ligada ao mundo apenas pelo fio das informações que me traziam, com paciência e carinho, pois ouvir era gostoso, desde que não exigisse respostas.

Em meio a todo esse contexto, enquanto mantinha aquele ar de bovino olhando a procissão passar, tentava forçar as idéias, em busca de inspiração para a crônica semanal. Para me obrigar a produzir, na medida do possível, havia preferido não relatar as dificuldades por que estava passando, o que foi bom, pois me deu um propósito, que era o que puxava o fio das idéias.

Algumas vezes no último dia combinado, em outras passando um pouco do prazo, lá vinha o momento em que se abria um fraco clarão na cabeça e corria a escrever. Faltavam as palavras, deixava espaços para preencher depois, aos poucos o texto se completava e era enviado a quem de direito.

Numa dessas, quando já estava me achando muito espertinha e lúcida, ocorreu o problema que me fez perder o sono. Mas o interessante de toda a experiência e a razão por que a relato, foi a conclusão tranqüila a que cheguei, passado o primeiro instante de terror e de “O que vão pensar de mim”? Resolvi: Paciência, fiz o que pude – e voltei a dormir.

Pela manhã, corri ao dicionário e descobri que a palavra era apropriada, não havia motivo para preocupação.

Aí pensei em outras situações em que um pouco de generosidade e paciência conosco se fazem necessárias. Quando o assunto em discussão é além da nossa alçada e precisamos ficar quietos, só ouvindo; quando as limitações do corpo nos obrigam ao papel de assistentes onde antes assumiríamos a liderança; quando a idade nos faz perder os óculos, o interesse pelas coisas, a força nas pernas, o fluxo das idéias. São tantas as situações, cada um conhece as suas.

É importante fazer o possível para contorná-las, lutar com ânimo e força de vontade. Depois encarar com naturalidade isso que pensávamos nunca ia acontecer conosco – parecíamos tão fortes – e voltar a dormir.

6 comentários:

Sandra Teixeira disse...

Oi Marta!
Tudo bem contigo?
Te conheço muito,pelo que escreves com que faz que me identifique,me entenda e me encontre,tu não me conheces,gostaria muitíssimo de ser tua amiga,pois acho que só me acrescentarias mais conhecimentos e muita vivência.
Nesta crônica que li me identifiquei muito,estou fazendo quimioterapia,e a descrição não poderia ser mais verdadeira,fez também com que eu encontre forças para seguir em frente,fiz aprimeira,talvez tenha que fazer 6,tenho um longo caminho para percorrer.
Um abração desta tua admiradora!!
Sandra Teixeira.

Marta disse...

Sandra, obrigada pelas palavras tão gentis. Elas fizeram com que valesse a pena ter escrito esta crônica.

É difícil escrever sobre as nossas experiências,porque é uma forma de exposição, e embora talvez não pareça, pelas coisas que escrevo, sempre fui extremamente discreta.

Mas é preciso que falemos sobre as nossas experiências, para desmistificar o que nos assusta, como a possiblidade de um câncer, por exemplo.

Um abraço e coragem. Escreva para o meu e-mail,se quiser, pois não sei o seu.

Anônimo disse...

Alô alo, sem palavras

Ruthe disse...

Marta!
Quero te dizer que esta tua preocupação com as palavras "perspectiva" e "expectativa"são ínfimas, pois a maneira como colocas as palavras no papel é que são relevantes!Um erro aqui, outro acolá ( se é mesmo erro)- que importa? Já ouvi grandes escritores dizerem: Foi erro de imprensa...

Beijos mil

Professor Geraldo disse...

Oi Marta:
Sou Geraldo, de Canavieiras - BA, amigo do Sergio Grigoletto, e seu aprendiz em contos e crônicas. Ele recomendou-me a leitura de seu blog para que eu possa bem desenvolver o meu e estou gostando muito. Sergio é meu amigo há mais de 15 anos e agora ele aguarda aqui na Bahia até que a antologia "A Ponte" saia da gráfica.
Geraldo

Marcela disse...

Oi tia Marta!
Escrevo agora para dizer que já a algum tempo tenho acompanhado tuas crônicos pelo site, as quais tenho apreciado muito, e cada vez mais admiro teu modo de escrita. Estou adorando os relatos da viagem, e já estou á espera da parte IV!
Além disso, te admiro pela força e coragem que tens, e que a cada dia renovas, mesmo durante todas as novas situações que aparecem.
Um beijo grande,
Marcela Vianna.