29 de nov de 2006

Um pouco da Ásia - parte IV - Rumo à Ásia


No banheiro do Novotel Airport, em Zurique, não há a usual touca de banho, nem shampoo ou condicionador, produtos que não trouxe, para não carregar coisas que os hotéis costumam oferecer; apenas sabonete líquido na pia e no chuveiro, presos na parede.

Considero “banheiros públicos” um assunto fascinante. Penso que alguém deveria elaborar uma tese sobre os mesmos. Estou convencida de que deve haver algum espírito brincalhão _ ou maquiavélico _ a preparar armadilhas para os incautos usuários. Começa pela difícil decisão de entrar em qual; pretendo o feminino, naturalmente, mas acertá-lo se transformou num quebra-cabeça.

Quando leio um M na porta e já vou colocar a mão no trinco, na outra vejo escrito F e compreendo, antes de ter alguma surpresa, que o M não era de Mulheres, como em outros, mas de Masculino. Já tenho visto sombrinhas e guarda-chuvas, chapéus com laçarotes e cartolas, desenhos de esguias donzelas e elegantes cavalheiros, vestidos e calças; alguns se diferenciam pelas cores das duas portas; em bares muito sofisticados, podem ser unissex.

Encontrar a descarga é outro teste de inteligência. No banheiro do Accademia Ristorante, procurei sem sucesso a descarga do vaso sanitário. Olhei na parte superior, sobre a caixa, do lado, na frente _ nada. Desisti, após alguns minutos de procura, e saí, disposta a consultar a companheira de viagem. Abrimos as portas dos respectivos compartimentos,ao mesmo tempo, e falamos em uníssono: _ Descobriu a descarga? Caímos na risada e fomos salvas pela senhora suíça que recém entrara: era no piso, ao lado do vaso sanitário, um botão preto. Resolvido esse dilema.

Em alguns banheiros, a descarga é acionada automaticamente, quando o usuário abandona o recinto, após desistir de procurá-la. Aí, ele leva aquele susto.
Estou preocupada com Cingapura: fui informada que, lá, deixar de puxar a descarga é crime, passível de multa ou prisão. E se não conseguir encontrá-la?

Já no Novotel, o próprio vaso sanitário do toalete é eletrônico. Na parte superior do mesmo,um painel indica “esterilizado”. Quando o usuário levanta, a descarga é acionada; logo após, uma caixinha, projetando-se sobre o assento _ esse de material flexível, semelhante a silicone _ começa o movimento circulatório, a fim de lavar, desinfetar e secar; completada a operação, a caixinha se recolhe. Alta tecnologia.

Pela manhã, na portaria do Novotel Airport, a jovem italiana arrisca algumas palavras em português. Conta que Zurique é cidade extremamente cosmopolita, aqui pessoas de todas as nacionalidades são bem aceitas e conseguem emprego.
Enquanto o resto da turma parte para Lucerna, pacote opcional, voltamos ao centro da cidade, no trem já nosso conhecido.

Pelas ruas, vejo um grande número de afro-descendentes, todos muito bem vestidos. Inclusive, noto várias crianças com bonecas negras nos braços, em evidente demonstração de incentivo ao orgulho de sua raça. Sou informada de que há muitas jovens afro-brasileiras, casadas com suíços. Nessa situação, a outra atendente na portaria comentou que volta ao Brasil uma vez ao ano, sempre no Carnaval. Imperdível, segundo ela.

A cidade é calma, as pessoas caminham pelas calçadas com tranqüilidade, solitários transeuntes circulam tarde da noite. Também vejo muitas mães com seus bebês nos carrinhos, passeando com outras. Não sei a razão, mas a sensação é de estar parada no tempo.

Contudo, o comportamento dos motoristas surpreende, pois tinha a idéia de povo extremamente educado. Nas faixas de segurança, fora dos semáforos, é preciso muito cuidado: os veículos vêm em alta velocidade e não diminuem a marcha. Vejo uma senhora, apoiada na bengala, atravessar às pressas, em plena faixa de segurança, enquanto um automóvel passa de raspão às suas costas. Viajar proporciona a desmistificação dos conceitos.

Bem, amanhã partimos rumo a Cingapura.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
Foi uma pena, quando terminou teu roteiro - simplesmente maravilhoso, pela diversidade de coisas tão simples - ri muito, e imaginei a tua reação diante de acontecimentos tão inusitados...

Beijos e carinhoso abraço