1 de dez de 2006

Recue, pra ver o que acontece

Na primeira vez em que José faltou, foi um Deus-nos-acuda no escritório. Os colegas precisaram assumir as suas funções e ninguém sabia muito bem onde estavam os papéis a despachar, as contas a pagar. Mas isso foi na primeira vez; na seguinte, já cada um se determinou melhor.

Jurema, a doméstica da casa, não se achava com tempo para aprender pratos novos; considerava natural que as camisas do patrão fossem para a lavanderia, porque ela não sabia engomar e se atrapalhava com os colarinhos. A patroa também resolveu lavar ela mesma as blusas de lã, desde que uma se transformou em tamanho infantil, quando a funcionária, para facilitar o serviço, a colocou na máquina de lavar.

Quando José, certo de que era insubstituível, faltou novamente, tudo funcionou tão bem no escritório, que o chefe compreendeu que o seu serviço havia se tornado desnecessário. Por isso, José foi despedido.

À mesma conclusão chegou Vera, a patroa de Jurema, quando essa saiu de férias e não fez a menor falta no andamento da casa. Assim, Jurema também foi substituída por outra funcionária mais interessada em ocupar o seu espaço.

Nos filmes, quando alguém começa a recuar, assustado com alguma coisa, demora um pouco até despencar de costas pela escada ou pelo despenhadeiro que não sabia existir atrás de si. Quando alguém recua, se encolhe, cada vez se torna menos participativo e interessado, de certa forma está se conduzindo para o despenhadeiro.

Às vezes, leva muito tempo para cair a ficha de que ele ou ela se tornou desnecessário. Continuamos tratando a pessoa com a maior consideração, fazemos cada vez mais, como para compensar a falta de retorno, até o dia em que ocorre um clique inesperado e nos damos conta do esforço unilateral. Pronto, caiu no despenhadeiro.

É comum as pessoas se ressentirem por terem sido substituídas, ou por outros ocuparem lugares que julgavam garantidos. Isso ocorre não só no terreno profissional, também em outras áreas, como a sentimental e a familiar. Todos nós, em alguns momentos da vida, deixamos que brechas se formem nos relacionamentos, mesmo nos que consideramos mais importantes.

Por comodismo, preguiça ou desatenção, recuamos e nos acomodamos, quando deveríamos exigir mais de nós mesmos; deixamos de ocupar espaço, permitimos que outras pessoas tomem a frente e marquem posições. Depois, nos ressentimos pelo que perdemos, quase sempre sem admitir a nossa parcela de culpa.

Sempre que deixamos de ocupar o nosso lugar, corremos o risco de vê-lo preenchido à nossa revelia; a abertura de espaço permite a intromissão de novos participantes no jogo. Preterido, às vezes alguém se queixa, assume o papel de vítima, diz que foi passado para trás, nunca esperava tal procedimento da parte daquele ou daquela. Na verdade, quem recua aparenta desinteresse, ainda que não seja essa a intenção. E, sem perceber ou desejar, entrega de bandeja a sua posição para o candidato mais próximo, os gaviões da vida, sempre atentos aos sinais de fraqueza.

O despenhadeiro está logo ali atrás, pronto para nos tragar. São milhares de situações em que o passo em falso pode nos levar a ele. São palavras mal-colocadas ou no momento errado, é a pretensão de nos julgarmos insubstituíveis, a puxada de tapete quando menos se espera. É preciso estar atento e ocupar os espaços, afastar o comodismo, fugir da omissão, aceitar os papéis que a vida oferece.

3 comentários:

Anônimo disse...

Querida escritora.
Penso como tu. O nosso direito de ocupar o espaço que conseguimos por qualquer que seja a razão, deve ser mantido. Numa família, mesmo, pensando nos velhos, se eles se ausentarem, por sentimento de inferioridade com culpa ou sem ela, este velho será esquecido.
Não receberá mais convites dos moços e quando o fizerem, o velho passará a ser uma pessoa incômoda, trabalhosa.
- ouve mal, entra mal nos assuntos, enfim, estas pequenas falhas que não aparecerão em uma convivência permanente serão ampliadas como situações desagradáveis.
Portanto, deixo aqui meu conselho: - Não abram mão do seu espaço.
Nada há que não possa ser substituido. Beijos, querida.

Ruthe disse...

Marta!

Esta tua Crônica é tão verdadeira, que chega a doer!
Acontece que, na maioria das vezes, as pessoas não se dão conta de sua omissão,acham que estão com o passo certo na vida profissional ou familiar! Quando se dão conta, o mal já está feito... Qual a atitude tomar? Vai depender de cada caso.
Mas este teu alerta é precioso e tenho certeza de que todos os leitores vão adorar e se "antenar"!

Beijos

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado