5 de dez de 2006

Um pouco da Ásia - parte V - Rumo a Cingapura


Retornamos ao hotel, cujos apartamentos precisaram ser liberados ao meio-dia. Anoto mentalmente a necessidade de observar esses detalhes, na escolha de uma próxima excursão. No roteiro, o vôo para Cingapura seria às vinte e três horas. Desacostumada a viagens em grupo, não compreendi que a saída do hotel se efetuaria às doze horas, para a companhia turística evitar pagar uma diária, a qual não seria aproveitada integralmente. Assim, todos os hóspedes passaram a tarde no lobby do hotel, disputando as cadeiras existentes. Ainda desacostumados à mudança do horário e sabendo da noite que nos aguardava, no avião, não tivemos muito ânimo para estender o passeio pela cidade. Às dezoito horas, embarcamos no ônibus rumo ao aeroporto.

Pressinto que esta viagem representará uma quebra de paradigmas. Na minha concepção equivocada, as pessoas viajam em grupo, acompanhadas de guias turísticos, para obter conforto e segurança, principalmente quando em idade avançada ou quando para países de cultura diferente.

O primeiro choque ocorre na chegada ao aeroporto. As malas devem ser retiradas do bagageiro do ônibus pelos próprios turistas, colocadas nos carrinhos e conduzidas ao check in, para serem pesadas. No nosso caso, não há problema, pois tomamos o cuidado de não colocar peso demasiado nas malas,prevendo essa situação. Outras pessoas, contudo,passam dificuldade, precisando ser auxiliadas pelos companheiros. Máximo, o guia da bandeirinha, está convicto de que é esse o seu papel: levar a bandeirinha; Lívia está com um problema no pulso, operado há pouco.Assim, a idéia de qualquer auxílio por parte dos guias foi descartada de início.

Os excursionistas ainda não se conhecem, não fomos apresentados. Nem seremos. Aos poucos,nós mesmos iremos nos apresentando.Somos quarenta, alguns de São Paulo, muitos de Belo Horizonte, poucos de Brasília e do Rio de Janeiro,só nós do Rio Grande do Sul.

A recepção no aeroporto de Zurique é muito simpática, um funcionário oferece chocolates em uma bandeja, enquanto os guias providenciam os passaportes para o check in. Observo uma senhora muito bem vestida, salto alto, cheia de jóias, não aparentando os oitenta anos que depois saberei possuir. Enquanto nos distraímos com os chocolates e a conversa generalizada, a sua bolsa é roubada: havia deixado sobre o carrinho. Após um momento de pânico, ela faz um inventário do que foi roubado: uma pulseira de ouro, óculos de grau e de sombra, algum dinheiro, documentos e a chave da casa. Por sorte, o passaporte já fora entregue.Lívia acompanha a perturbada passageira até o balcão de reclamações, onde ela registra a ocorrência.

Os nossos assentos no avião da Swiss Air são os números 45E e 45F. Ficamos consternados, ao chegar lá: ao lado do toalete. Compramos as passagens com um mês e meio de antecedência, chegamos três horas antes ao aeroporto e tudo o que a companhia turística conseguiu foram os últimos assentos. Se nós mesmos houvéssemos feito o check in, solicitando à operadora outros assentos, teríamos muita chance de ser atendidos, como comprovarei em oportunidades futuras.

Na hora do jantar, como é o último lugar a ser servido, não tem escolha; recebemos o que sobrou, sem ouvir a pergunta: Chicken ou roastbeef?

Durante toda a noite, é intenso o entra e sai no toalete, aumentado o desconforto pelo acender e apagar das luzes, o ruído da descarga do vaso sanitário, o inconveniente das pessoas à espera, encostadas ao meu assento. Acrescido ainda pelo barulho proporcionado pelas aeromoças, na copa ao fundo, mexendo nos pratos e talheres, conversando, é impossível dormir. Quando muito, fechamos os olhos para descansar. Guardo na memória este número, 45, para evitá-lo a todo custo, em outra oportunidade.

Certa vez, quando descrevi o que é o vôo internacional, em classe turística, a alguém que nunca havia viajado de avião, o meu interlocutor com certeza julgou que eu estava exagerando, quando completei: “Lembra aquelas idas ao Paraguai, nos ônibus bate-volta? Viagem aérea internacional é muito parecida”.

Talvez seja essa a razão de a maioria dos passageiros que, na volta a casa, se prometem nunca mais viajar na classe econômica, mudarem com facilidade de opinião, ao programar a próxima viagem.

_ Afinal, é só uma noite de sacrifício _ argumentam.

Embora, ao contrário, outros afirmem:

_ Em primeiro lugar, o meu conforto. Pago com gosto por uma boa noite de sono, um jantar especial e um champagne para arrematar.

Mas a melhor foi a conclusão do vizinho de poltrona, comprimido no seu assento:

_ Há duas semanas, morreu a sogra e passei a noite no velório. Por que não posso passar outra insone e ainda economizar?

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!

Acredito que viajar não é opção para qualquer pessoa. Precisamos estar preparados para "N" surpresas-umas agradáveis e outras desgradáveis...É necessário ter uma boa cabeça para poder levar tudo numa"nice", senão...
Mas acredito que sempre valerá à pena!

Beijos