13 de dez de 2006

Um pouco da Ásia - parte VI - Cingapura


Enfim, chegamos à primeira cidade asiática, dentro do nosso roteiro. Cingapura, considerada a cidade mais limpa do mundo, é também estado e país, tudo ao mesmo tempo. A ilha principal, junto com outras menores, tem a extensão de 640 km quadrados, a mais de 15.000 km do Brasil _ vinte e cinco horas de avião, no mínimo, e avanço de onze horas no fuso-horário. A escala em Zurique teve justamente o propósito de diminuir o estresse causado pela viagem demorada.

Comprimida entre a ponta ao sul da Malásia e o mar, Cingapura é um paraíso tecnológico futurista e rico; sistema político dos mais fechados da Ásia, possui forte censura e aplicação de penas medievais. A população, com maioria de descendentes chineses, também inclui malaios, indianos e ocidentais. Sem discriminação de raça ou credo, convivem templos islâmicos,indianos, budistas e taoístas.

Conta uma lenda malaia que um príncipe sumatra, visitando a Ilha de Temasek, viu um estranho animal, semelhante ao leão, que lhe sugeriu ali fundar uma cidade. O príncipe atendeu ao pedido da fera e assim surgiu Cingapura.
Contudo, a história oficial de Cingapura é repleta de passagens tão inverossímeis que não haveria necessidade de recorrer à fantasia para torná-la interessante.

Desde a chegada de Sir Stamford Raffkes, em 1819 _ declarado fundador oficial de Cingapura, em 1970, para dissuadir as pretensões malaias e chinesas _ até o tempo presente, Cingapura sofreu inúmeras modificações políticas e comerciais.

Antes, a pequena ilha, no fim da península, era selva pertencente à Malásia, habitada por pescadores. Desde o século V AD, comerciantes chineses percorriam as suas águas, a caminho da Índia. Nos relatos sobre Marco Polo, já há referências de visitas a uma cidade na localização de Cingapura.

Sendo porto estratégico, próximo à China, atraiu a atenção de outros povos. Armados com a cruz e os canhões, os portugueses tomaram a Malásia em 1511, conseguindo acabar com a supremacia do comércio islâmico na região. No século seguinte, foram os holandeses que tiveram a sua sanha de conquista despertada, dominando-a em 1641.
No final do século XVIII, a Inglaterra começou a procurar um porto no Estreito de Málaga, a fim de assegurar o livre comercio entre a China, Malásia e seus interesses na Índia. Ocorreu, então, a guerra na Europa, propiciando à Inglaterra dominar as possessões holandesas ao sul da Ásia.

Quando, no final da guerra napoleônica, em 1818, a Inglaterra concordou em restaurar as possessões holandesas,houve grande desapontamento por parte dos ingleses com o fracasso do sonho de expansão do império britânico no sul da Ásia.

Nesse momento, surgiu a figura de Sir Stamford Raffles, governador de Java. Percebendo o potencial da ilha, em 1819, o inglês pediu permissão para fundar uma estação para garantia das rotas inglesas na região e foi instruído para negociar com o sultão da próxima Johor a compra da ilha.

Tendo morrido o velho sultão, o império se encontrava dividido,nessa ocasião. Aproveitando-se da ausência do filho mais velho, o mais jovem, Hussein,assumira o poder, graças a um tratado feito com o governo holandês. Raffles tirou proveito dessa situação: tratou de proporcionar apoio inglês ao legítimo herdeiro do poder, proclamou-o sultão e instalou sua residência na Cingapura recém fundada.

Segundo os planos de Raffles, o sultão não teria poder, mas serviria para tornar legítima a pretensão inglesa na ilha. Indo além, pelo pagamento de modesta quantia anual, obteve a permissão de utilização do porto. Em 1824, os direitos sobre o porto de Cingapura foram comprados pela Inglaterra.

Embora responsável pelo desenrolar desses acontecimentos, Raffles teve o mérito de tornar Cingapura porto livre. Ele se opôs à escravidão, valorizou a cultura local e planificou a cidade. Em cinco anos, nela habitavam dez mil pessoas.

No século XIX, era rara a permissão para as mulheres chinesas deixarem a China, por isso foi permitido aos homens chineses casarem com as mulheres malaias. Dessa união, surgiram os Peranakan, mestiços com quem os britânicos podiam contar, por possuir capital e família em Cingapura.

A colonização inglesa na Malásia permaneceu até 1959, embora no período entre 1942 e 1945 ela tenha sido ocupada pelos japoneses. Os chineses cingaporianos pagaram alto preço por se terem oposto ao imperialismo japonês, quando o general Yamashita tomou Cingapura.

Para os ingleses, a derrota foi humilhante. O primeiro ministro britânico, Winston Churchill, foi considerado o responsável pela perda de Cingapura, por não haver desviado as forças da guerra da Europa para defender a colônia inglesa.

As regras japonesas foram duras em Cingapura, que teve seu nome mudado para “Luz do Sul”. Muitos ingleses foram aprisionados; os chineses comunistas e os intelectuais foram executados. Malaios e indianos também foram submetidos a abusos. Com a continuação da guerra, faltaram alimentos, remédios e outros suprimentos essenciais. No final, a população estava faminta.

Quando a guerra acabou, repentinamente, com a derrota do Japão, Cingapura e toda a Malásia voltaram ao domínio inglês. Mas o direito e a habilidade dos ingleses para governar haviam sido postos em dúvida.

Os filhos dos nativos malasianos, indo estudar na Inglaterra, adquiriam, além da cultura, consciência política. Como conseqüência natural, foi fundado o primeiro partido político na Malásia, socialista, formado por muitos estudantes, sendo ele o responsável pela obtenção da independência. O novo partido incluía uma facção comunista e tinha o audacioso plano de forte intervenção estatal para industrializar a economia de Cingapura.

Com o fim do domínio colonial inglês na Malásia, começou a surgir o pequeno país, Cingapura. Dois anos depois, obteve direito a um governo autônomo; em 1965, tornou-se independente da Malásia.

Nessa ocasião, assumiu o primeiro-ministro Lee Kuan Yew,_ figura por trás de todos os movimentos de luta pela independência _ que a governou com mão de ferro por trinta e um anos. Homem culto, advogado, tendo estudado na Inglaterra e valorizando o trabalho, Mr. Lee logo criou indústrias no antes porto franco: borracha, alta tecnologia, medicina adiantada. É de sua responsabilidade a conduta irrepreensível do poder público e das instituições, bem como o progresso tecnológico que acomete o país, onde a disciplina é levada muito a sério. Em 1990, renunciou, conservando a posição de Senhor Ministro.

Seu sucessor como presidente de Cingapura foi o filho, Nathan, eleito por maioria de votos.Sob o olhar atento do velho pai, segundo contam.

Pelo enorme desenvolvimento alcançado, é fácil a compreensão da relação ambivalente com a Malásia. Perduram algumas questões não resolvidas, contudo as duas nações estão mais unidas por interesses comuns que o inverso.

Ao procurar dados sobre Cingapura, antes de viajar, soube que jogar papel ou cuspir no chão, usar o banheiro público e não dar descarga, atravessar fora da faixa de segurança e vender material pornográfico ocasionam multas pesadas ou podem levar o infrator a uma temporada atrás das grades. Desde Mr Lee, foram instaladas câmeras nos elevadores, para descobrir e prender as pessoas que urinassem nos mesmos. Mascar chicletes não chega a ser crime, mas não é permitido, pois a goma de mascar mancha as calçadas; inclusive, a comercialização é proibida, desde janeiro de 1992. Portar drogas é caminho certo para a pena de morte. Aqui a pena de morte é através da forca, com assistência permitida, para desestimular a criminalidade.

Entre as proibições, consta a “Lei do porte”: a fruta símbolo nacional, “durian”, parecida com a jaca, é banida em lugares públicos, pelo cheiro insuportável, apesar do sabor delicioso.

A conduta em público deve ser pudica, evitados beijos e demonstrações expansivas de carinho. Também não são apreciadas piadas maliciosas.

Por outro lado,são oferecidos incentivos à educação e às mulheres universitárias, para que tenham mais filhos.Após uma forte campanha para diminuição da natalidade, entre 1970 e 1980, o governo ficou preocupado com a alarmante queda de nascimentos, principalmente entre a população chinesa. Assim, decidiu reverter a situação, incentivando as jovens de nível universitário a casarem e procriarem, ao mesmo tempo em que oferecia recompensas financeiras para esterilização aos casais de baixo nível educacional.

É provável que Cingapura seja o único estado a possuir uma agência matrimonial oficial, com a finalidade de proporcionar encontros e programas de divertimentos para os jovens de ambos os sexos, para facilitar o casamento e a conseqüente procriação.

Possuidora de alguns desses conhecimentos sobre Cingapura, desembarquei com certo receio. Em país estranho, qualquer passo em falso pode ser motivo de aborrecimento e a ignorância sobre a cultura é sério problema.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!

Parece mentira que existe um lugar como Cingapura, pois parece mais a "Ilha da Fantasia", onde tudo se realiza, é belo e harmonioso! Deveriam fazer mais documentários sobre cingapura, modelo de um bem viver!

Beijos