5 de fev de 2007

Além da linha da solidão

Viúvos, solteiros e divorciados de ambos os sexos falam sobre as dificuldades encontradas no convívio social. Ainda que muitos casais sofram do mesmo mal, o fenômeno vivenciado pelos sem-parceiros é diferente.
Quando desejam conhecer outras pessoas, independente de relacionamentos amorosos, homens e mulheres sozinhos têm o mesmo problema: onde e como encontrar os seus iguais. Companhia de outro sexo para almoçar, provar um vinho, fazer um passeio de barco, ir a um vernissage. Só para conhecer o ponto-de-vista feminino ou saber o que os homens pensam, afinal. Apenas para trocar idéias, sem o obrigatório envolvimento sexual ou emocional.

Os jovens, embora também enfrentem inúmeras dificuldades nessa área, pelo menos possuem locais programados para se encontrarem. A alta freqüência determina quais os melhores bares, os postos de combustível, as lojas de conveniência onde devem marcar território. Ainda assim, dependendo das circunstâncias, alguns podem se ressentir do isolamento social. No país de Gales, por exemplo, jovens produtores de leite procuram driblá-lo, estampando as suas fotos e o endereço para contato nas garrafas de leite postas à venda, com a esperança de conseguir namoradas entre as consumidoras. Após este primeiro passo, a comunicação é estabelecida através da internet.

Mas é na vida adulta, distantes das facilidades proporcionadas pela proximidade nos bancos escolares, que homens e mulheres se deparam com a questão maior: onde e como conhecer gente nova? Pode freqüentar um bar, certo. Senta lá, e aí? Se não se aproximar de ninguém, ninguém chegará perto dele ou dela. Se chegar, pode ser mal-interpretado. O cara só quer bater um papo descompromissado e ela já lança aquele olhar desconfiado, pesquisador das segundas-intenções. Ou ela pretende rir um pouco, cansada da conversa das amigas habituais, e ele se retrai, desinteressado do seu tipo físico. Um mar de incompreensões afasta os dois universos.

Mulheres sozinhas se ressentem da discriminação sofrida em seu próprio grupo social, quando passam a ser convidadas apenas para reuniões estritamente femininas, por insegurança das casadas em relação à sua pretensa disponibilidade. Da mesma forma, homens solteiros podem ser condenados ao ostracismo social, se não tomarem a iniciativa de procurar companhia.

Embora sejam comuns as esposas e maridos temerosos da influência que os sem-parceiros possam exercer sobre os seus conjugues, a convivência entre os casais formados e seus amigos solteiros, viúvos e divorciados de ambos os sexos tende a ser extremamente agradável, divertida e enriquecedora, por mostrar outras perspectivas, abrindo os horizontes. Contudo, a liberdade de ir e vir, a falta de amarras, a disponibilidade sentimental e de horários metem medo aos que se sentem inseguros, aprisionados dentro de uma situação nem sempre desejável.

Por seu lado, os sem-parceiros também se sentem deslocados em reuniões em que representam o número ímpar.

Nesse “salve-se quem puder”, pessoas inteligentes buscam alternativas. A internet, embora pareça uma solução cômoda, tem o inconveniente do anonimato, terreno propício para mal-entendidos e frustrações. Mas é válido freqüentar academias, cursos de culinária, oficinas de teatro, praticar voluntariado ou engajar-se em qualquer atividade que proporcione contato social. Em tais locais, a tendência é encontrar outras pessoas com os mesmos gostos e interesses e o contato social se fazer ao natural.

Além disso, os amigos só terão a ganhar, se formarem grupos heterogêneos, em que as diferentes experiências acrescentarão o sabor inovador.

Seja a solidão opcional ou causada pelas circunstâncias da vida, a dificuldade em desfrutar de convívio social enfrentada por muitos homens e mulheres é tema que merece a nossa atenção. Doloroso, atual e complexo, o assunto está na mesa. Precisa ser debatido, debulhado, mastigado, para que os interessados percam seus receios e desconfianças e se arrisquem a dar o primeiro passo além da linha da solidão.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
Acredito que a solidão não vem até nós - virá se a deixarmos vir!
Podemos formar um grupo desde cedo, pessoas que caminham na mesma direção, trabalhar para Entidades Assistenciais, e mesmo ter amigos virtuais - a escolha é sempre nossa!
Podemos estar rodeados de gente e sentirmos solidão ou estarmos só e nos bastarmos.
É um tratado muito difícil, mas existe uma solução para cada caso - precisamos encontrar o que melhor se adapte à nós. Beijos