28 de mar de 2007

Um pouco da Ásia - parte XXI - Gafes culturais


Ontem à noite, resolvidos a experimentar a autêntica culinária tailandesa, optamos pelo restaurante Sea Food Market, localizado dentro do mercado de peixes e muito recomendado. No aquário, escolhemos uma lagosta. Como somos três casais, optamos por uma de dois quilos e oitocentas gramas. Não contentes, também pedimos dois peixes menores e acompanhamento de salada e aspargos verdes. O garçom achou que não era necessário, mas estávamos com fome. Considerando que a salada parecia mais enfeite que alimento, alguém pediu batatas fritas; outro preferiu uma porção de batatas cozidas. Os pedidos eram realizados no meio da conversa, sem grande concentração. Cada um pensava na sua fome, pedia algum prato e voltava ao assunto, sem que ninguém se detivesse muito nas múltiplas escolhas. De repente, alguém falou:

_ Será que não exageramos no pedido? _ Mas aí já era tarde, os pratos começavam a chegar e foram sendo colocados no centro giratório, sobre a mesa redonda. Ao lado de cada prato raso, havia um garfo e uma colher, junto aos pauzinhos, que sabíamos ser opcionais. Julgando que as facas houvessem sido esquecidas, ao arrumarem a mesa, tratamos de pedi-las, para podermos comer a gigantesca lagosta, que já chegava. A gentil atendente trouxe as facas, com presteza,e se colocou perto,observando. Aproveitamos as colheres de sopa, colocadas ao lado dos pratos, para servir as batatas e saladas, pois eles não haviam trazido com o que servir e não desejávamos fazer mais solicitações.

Logo outras duas moças se aproximaram da primeira e as três nos olhavam e riam as suas risadinhas discretas, enquanto se entreolhavam, deliciadas, observando os nossos gestos.

Distraídos com os assuntos que se sucediam, não demos muita atenção a elas, julgando que estivessem apenas curiosas, por sermos diferentes das pessoas que costumavam ver. Em Bangkok, são raros os ocidentais.

Como a lagosta era muito grande, não conseguimos comê-la até o final, embora nos esforçássemos muito, preocupados em não desagradar aos nossos anfitriões.

Hoje, enquanto nos conduzimos a novo programa, dentro de uma van, um dos companheiros de viagem lê o livro sobre Bangkok, adquirido em Cingapura, transmitindo-nos, em voz alta, o que julga interessante.

_ Putz! ele exclama, escandalizado,batendo com os dedos fechados na testa. Tendo atraído a nossa atenção, continua:

_ Uns bárbaros! Somos uns bárbaros! Fizemos tudo errado!

Logo ele começa a ler, deixando-nos consternados. Esforçamo-nos tanto para ser gentis e quase cometemos uma grande indelicadeza, ontem, no restaurante Sea Market Food. Realmente, ignorantes dos costumes locais, fizemos tudo errado. Essa a razão de as garçonetes se divertirem tanto com os nossos modos à mesa.

Para começar,jamais deveríamos ter solicitado as facas, pois o seu uso é considerado de extrema indelicadeza. Também não deveríamos ter utilizado as colheres para colocar as porções nos pratos de cada um, como não foi de bom tom deixar as colheres dentro dos pratos ao centro, para os outros se servirem com a mesma colher. Da mesma forma, não deveríamos colocar uma porção de peixe, outra de batatas, ao mesmo tempo, no prato.

Os tailandeses comem com a colher e o garfo, usando o garfo para colocar a comida na colher, a qual é usada para levar o alimento à boca. Para eles, colocar o garfo na boca é sinal de péssimas maneiras, embora seja comum a utilização das mãos para comer porções de arroz e de massa.

Os tailandeses consideram o ato de comer como uma ocasião social para ser partilhada com o maior número de pessoas possível. Sendo um momento comunitário, não são pedidos pratos individuais, como fizemos. O interessante é que, embora sendo a refeição considerada um ato comunitário, diz a tradição que seja paga pelo mais velho do grupo. Entre os mais jovens, já é aceito o costume americano de dividir as despesas.

Também jamais se deve mudar a posição ou levantar o prato de servir. Como o centro é giratório, isso não é difícil. Caso alguém esteja longe, o máximo que deve fazer é estender o próprio prato, para ser servido por quem estiver melhor localizado.

O correto teria sido, utilizando o seu garfo, cada um colocar no próprio prato apenas a pequena porção que iria levar à boca, um bocado de cada vez; após, com o auxílio do garfo, colocar a porção na colher e levar à boca.

Além de todas as gafes cometidas, quase cometemos a pior de todas, que teria sido comer tudo o que estava exposto sobre a mesa, o que bem nos esforçamos para fazer. Isso teria significado que o restaurante não era farto. O adequado, na Tailândia, é deixar sempre alguma comida nos pratos centrais, para demonstrar apreço pela generosidade do restaurante.

Ainda bem que fomos simpáticos e fizemos muitas reverências, na saída do restaurante. Pelo menos isso. Mas também serve a lição para nos ensinar a ter compreensão com as pessoas de cultura ou educação diferente.

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