26 de mai de 2007

O prazer de ouvir a própria voz

Se a proposta é ouvir uma palestra, estamos condicionados a ficar em silêncio, com a atenção voltada para as palavras e gestos do palestrante. Em geral, o assunto é do nosso interesse; em caso contrário, não estaríamos ali. Alguns palestrantes conseguem reter a atenção até o final, com brincadeiras, provocações à platéia ou com a importância do tema. São bem-sucedidos, quando o assunto não se esgota ao término da palestra e o debate se inflama na hora do cafezinho. Gloriosos, quando se prolonga no pensamento dos ouvintes, levados a continuar tirando as suas próprias conclusões.

Outros, embora tratando de temas interessantes, com pleno domínio do assunto escolhido, têm dificuldade em transmitir o seu recado, por lhe faltarem outros dons, como síntese ou oratória. Sendo capazes de perceber essa deficiência, podem procurar cursos ou livros com dicas para falar em público, de forma a superar o problema.

Mas chato mesmo é quando alguém resolve se arvorar em orador, para ter os seus cinco minutos de fama. Que seriam concedidos, pela generosidade dos ouvintes, se realmente o tempo utilizado fosse esse. Só que os minutos costumam se prolongar, enquanto uns olham o relógio, disfarçadamente, outros começam a conversar, alguém mais afoito já tem as mãos prontas para iniciar a salva de palmas.

Isso costuma ocorrer em jantares de confraternização, inaugurações, solenidades de entrega de prêmios, formaturas e outras tantas ocasiões aproveitadas pelos vaidosos de plantão. É o prazer de ouvir o som da própria voz e a pretensão de acreditar que os outros têm semelhante encanto por ela.

Nessas ocasiões, principalmente quando o cerimonial tem uma seqüência a ser seguida, é importante dar o recado rápido, sem muitas idas e vindas. Solenidades de formatura, por exemplo, costumam ser longas e cansativas, o que poderia ser facilmente evitado, se cada orador tivesse permissão para usar no máximo os tais cinco minutos. Bem utilizados, pode-se dizer muito nesse tempo. Além do mais, após assistir à entrega dos diplomas, ponto alto da ocasião, os convidados estão ansiosos pela festa, a reunião com os amigos, a sua oportunidade de brilhar e gastar o verbo.
Em programações que pressupõem almoço ou jantar na continuação, então, todo cuidado é pouco. Com fome, a paciência é rapidamente esgotada.

A vaidade, traiçoeira, pode criar armadilhas imprevisíveis. O sujeito está lá, tranquilamente sentado, e de repente é surpreendido com a solicitação para fazer o agradecimento em nome de todos os homenageados. Pronto, a vaidade sobe à cabeça, junto com o efeito do cabernet sauvignon. Imagina-se o centro das atenções e esgota a paciência de todos, num discurso em que aproveita para se enaltecer.

Muitas pessoas entram em pânico, quando chamadas a falar de improviso. Na verdade, o importante é o motivo de todos estarem reunidos, e esse deve ser o tema. O orador ocasional é apenas parte da engrenagem. Se estiver consciente disso, se não permitir que a vaidade suba à cabeça e o leve a falar de si e do seu trabalho, as palmas ao final serão sinceras e agradecidas. Se perder o foco da situação, corre o risco de ser surpreendido com um inesperado aplauso, obrigando-o a calar a boca de qualquer maneira.

2 comentários:

Sergio Grigoletto disse...

Marta...

Genial! Só quem organiza eventos sabe o que é isso.

Ruthe disse...

Marta!
Fantástico este conteúdo - não poderia ser mais preciso!
Já é do conhecimento das pessoas, que temos pouco tempo de atenção. Passado este prazo,por mais interessante que seja a conversa ou palestra, nossa mente se desloca para outras paragens.O orador deve ter noção do que vai falar, para quem e como... Caso contrário a platéia entrará em recesso!

Beijos da Ruthe