23 de mai de 2007

Um pouco da Ásia - parte XXVIII - Turismo por conta própria




Na manhã do segundo dia em Pequim, decidimos fazer algum turismo por conta própria. A maioria dos outros companheiros de excursão acordou bem cedo e foi direto ao aeroporto, para pegar o avião para Xi’an a fim de conhecerem o exército subterrâneo dos guerreiros de terracota. Preferimos abdicar do passeio, pela exigüidade do tempo. Seria bom se pudéssemos ficar mais tempo em Pequim, onde há tanto para conhecer e apreciar.

Antes de sairmos do hotel, o guia chinês, Chau, que fala inglês correto, tem o cuidado de fornecer a todos, por escrito, o nome dos pontos turísticos que cada um deseja conhecer. Assim, ele escreve em inglês e em mandarim a mesma frase, a fim de que saibamos o que pedir e o motorista do táxi possa compreender aonde deverá nos conduzir.

No saguão do hotel, escolhemos e compramos os mapas com indicações em inglês e em mandarim.

Primeiro, nos dirigimos ao Beihai Park, muito bonito, situado no centro da cidade, com um grande lago onde as famílias passeiam em barquinhos. Há muita gente passeando no parque, mas despertamos a atenção de todos, por sermos os únicos ocidentais. As crianças nos saúdam, alegremente: “Hello!”. Devem pensar que somos americanos.

Caminhamos ao redor do lago. No interior do parque, há vários palácios e pavilhões. No inverno, as pessoas podem esquiar no gelo. À nossa frente, um menino em idade de ainda usar fraldas também caminha, junto com os pais. Veste uma calça com um corte longitudinal na parte traseira, onde seria a costura, de forma que, pela frente, ele está vestido corretamente, pelas costas tem a bundinha exposta. Deve ser para evitar o uso das fraldas e facilitar a ida ao banheiro, mas a naturalidade com que a fase infantil é tratada se torna engraçada.

Saindo do parque, vamos a uma rua comercial. No calçadão, vemos diversas lojas de grifes, o imponente Beijin Hotel e um Mc Donald’s, onde resolvemos almoçar, para evitar surpresas. Ali, pedindo o número 1 ou o número 3, temos o sabor esperado. A garçonete se chama Sophie, seu nome inglês, mas possui outro nome chinês, como é costume.

Depois, no comércio, compro souvenirs: bolsas chinesas, bijuterias, um buda de marfim.

Numa rua lateral, encontramos um mercado de alimentos, com bancas colocadas sobre a calçada. Curiosos, começamos a admirar as iguarias expostas: besouros, baratas e outros bichos estranhos em pequenos espetos, vários no mesmo. Um besouro se move, levamos um susto, recuo assustada. O chinês explica, com naturalidade, que eles estão vivos, apenas dormem, por causa do calorzinho do sol. Então, está bem.
Embarcamos em outro táxi e vamos à rua do comércio de imitações, famosas pela perfeição e pelos preços baixos.

Em um lado e outro do calçadão, estendem-se corredores cheios de banquinhas, muito semelhantes às dos camelôs brasileiros.

Por se tratar de um país socialista, é meio estranho, mas o guia Chau explicou, durante o passeio turístico, que desde 1978, quando houve uma discussão dentro do Partido, para decidir sobre o regime ideal, se socialismo ou capitalismo, ficou decidido: “Faremos o que for melhor para o povo. Não importa a cor, se capitalismo ou socialismo”.

Nessa ocasião, nas cidades ocorreu a reforma industrial, e no campo a reforma agrária, com distribuição de terras a algumas famílias. Antes, segundo Chau, toda a riqueza pertencia ao Estado e os camponeses plantavam, sem entusiasmo, o que o Estado desejava.

A filosofia de Mao era a de um país em que todos eram igualmente pobres mas honrados. Já Deng Xiao Ping desejava mostrar ao mundo que socialismo não é sinônimo de pobreza; ao contrário, o enriquecimento é glorioso.

No comércio das imitações, a vendedora some com as caixas de relógios Rolex e Pateck Philips, substituidas por bolsas grandes, quando há uma ameaça de batida policial. As bolsas Louis Vitton e Prada estão escondidas; só aparecem quando solicitadas.
Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência, concluímos, quando um dos comerciantes informais sai da sua banca, dirige-se ao fiscal sentado na calçada, com as costas apoiadas na parede, e disfarçadamente coloca uma propina em sua mão, a qual logo desaparece no bolso da calça.

Aqui a barganha também é muito usada e divertida. Só é exagerada: é aconselhado que o comprador ofereça a décima parte do primeiro preço pedido. O vendedor se finge indignado: _ It’s a joke! (É uma piada!) _ exclama.

Bastou mostrar interesse pela mercadoria e perguntar o preço para a vendedora já colocar a calculadora na mão. Entro no jogo, começando por uma contra-oferta ridícula. Segue o regateio de um lado e de outro, aumento pouco a oferta, mostro desinteresse, ela vai baixando o preço, a calculadora ora na mão dela, ora na minha. Fala: _ Not for me, not for you _ como a propor o meio-termo. Ameaço ir embora, quero devolver a calculadora, mas ela não aceita, quer continuar a negociação.

_ How much do you pay? – pergunta sem parar, repetindo-se no inglês escasso.
Lá pelas tantas, já tonta, desisto da negociação, consigo devolver a calculadora e começo a me afastar. Ela vai atrás, finge entregar os pontos, empurra a mercadoria para as minhas mãos, pega o dinheiro que eu desejava pagar. Um produto de 750 yuans ficou por 200 yuans. Oito yuans correspondem a um dólar americano.

Enquanto isso, alguns americanos também fazem as suas compras, de modo completamente diferente do que nos foi ensinado. Interessados numa calça, por exemplo, a primeira coisa que fazem é se enfiar na dita calça, ali mesmo na calçada, por cima da roupa, obedecendo à sugestão do vendedor. Depois de experimentar, aceitam o preço pedido, sem discutir. Os chineses nem colocam a calculadora na mão deles, sabem que não vão pechinchar. Mas, além de pagar muito mais, eles perdem uma boa diversão.

Voltamos ao Hotel. O resto do pessoal chega tarde da excursão aos guerreiros de Xi’an. Cansados, contam que perderam muito tempo no aeroporto e com a viagem.

Agora, vamos descansar, para amanhã conhecermos a Grande Muralha.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!

Achei ótimo terem ido se aventurar em terras estranhas, mas não sei se iria fazer o mesmo, pois acho muito perigoso quando não se domina bem outras línguas - meu caso!
Mas acredito que se divertiram bastante!

Beijos Ruthe