7 de jul de 2007

Do outro lado do oceano

A internet proporciona situações inimagináveis, há poucos anos. De repente, o mundo ficou interligado: pais e filhos driblam a saudade, distanciados por milhares de quilômetros; profissionais fazem reuniões de negócios, sem sequer estarem na mesma cidade; amigos virtuais criam elos profundos, sem jamais se terem visto. Através da internet conheci Nvunda, o meu amigo angolano. Um dia, recebi um e-mail dele: contava que lia as minhas crônicas no site do Clésio Boeira e gostaria que trocássemos idéias sobre nossos diferentes universos. Entre os dados fornecidos, disse a sua idade: na ocasião, Nvunda tinha dezoito anos.

A diferença de gerações não foi empecilho para a amizade virtual, talvez porque, no mundo das letras, ambos engatinhássemos, procurando caminhos e portas abertas.

Mais tarde, Nvunda transmitiu-me o convite do seu pai, editor de jornal em Luanda, para que me tornasse colaboradora do Folha 8, enviando uma crônica semanal. Aceitei, sem muita esperança de cair no gosto dos leitores, imaginando que as diferenças de cultura dificultariam o intercâmbio de idéias. Contudo, para minha sorte, a coluna “Do outro lado do oceano” foi prestigiada com o interesse dos angolanos.

Fiquei rindo à toa, feliz da vida, quando Nvunda contou que alguns leitores já procuravam a coluna,ao abrirem o jornal.

Aos poucos, principalmente lendo os jornais chegados de Luanda, compreendi as semelhanças das culturas brasileira e angolana. Embora distantes, as duas nações enfrentam problemas parecidos. Ambas convivem com violência, insegurança e têm muito a construir no setor educativo, sem citar inúmeras outras inconveniências que tumultuam o cotidiano, tanto cá como lá.

Além disso, a leitura de um artigo sobre a minissérie “O Comba”, apresentada pela Televisão Pública de Angola _ novela que trata dos costumes angolanos _ também me fez compreender que, como muitos de nós, os cidadãos de Angola se ressentem da desvalorização e da perda das suas tradições.

O artigo fazia referência, inclusive, aos estrangeirismos adotados como pretensos costumes locais. Como exemplo, lembrava as mesas apresentadas no café da manhã, nas novelas, com frutas européias, em lugar das nacionais.

Em geral, a família, as pessoas e os costumes apresentados na TV brasileira também pouco têm a ver com a nossa realidade. Ao contrário, as novelas ditam modas e inventam costumes, que passam a ser aceitos e assimilados pelos jovens, criando novas regras de comportamento. É pena, pois as novelas exportam a imagem de um Brasil fútil, permissivo, que não é a cara do povo brasileiro.

Perdemos todos, quando assumimos estrangeirismos. Cidades e países se tornam desinteressantes, quando renegam os seus costumes e adotam maneirismos que não são seus. A preservação dos nossos costumes e tradições é o selo de autenticidade que nos diferencia.

A internet criou um mundo sem porteiras, onde é possível circular livremente, apreciando outras culturas.

É tranqüilizador saber que, “do outro lado do oceano”, pessoas de diferente nacionalidade têm os nossos mesmos anseios por paz e prosperidade. Compreendendo as nossas semelhanças, podemos absorver coisas boas uns dos outros, mas é importante que cada um preserve a sua maneira de ser. A fidelidade às origens é a marca de quem se sabe especial.

3 comentários:

Ruthe disse...

Marta!

Concordo contigo quando escreves que devemos manter fidelidade às origens!O mundo seria muito sem graça se todos fossem iguais. O belo está nas diferenças!

Ruthe

Suely Duarte Simões Lopes disse...

Que fantástico isto que te aconteceu, adorei, quero te parabenizar, qualquer pessoa ficaria muito feliz ao ser reconhecida internacionalmente.
Angola fala a nossa lingua e mesmo assim achei o máximo.
Quanto ao que penso, "tu tens sempre razão", és muito sensata, corajosa, verdadeira, e tudo de melhor que pode ter um ser humano. Beijos,

Anônimo disse...

Oi Marta!

Legal a notícia sobre a Marta em Angola! Muitas oportunidades pra falares de nós os gaúchos neste Brasil globalizado.

Beijos

Kenya