2 de set de 2007

Não tenho nada com isso

O cronista ligou o telefone para se solidarizar sobre o ocorrido durante a espera para a audiência pública sobre violência no campo e reforma agrária, marcada para o dia 9 de agosto, na cidade de Pedro Osório, que precisou ser cancelada, em virtude da intervenção dos integrantes do MST. O cronista desejava entender melhor a situação, na intenção de escrever sobre o tema, quem sabe contribuindo com maiores esclarecimentos aos seus leitores. Disse uma frase curiosa: “Terra, só possuo a que está nos vasos com flores; mas sou contra invadirem as terras dos outros”.

Para ser imparcial, aconselhei o acesso ao site www.pedroosorio.net onde poderia ver as fotos do confronto entre sem-terras e produtores rurais, a discussão produtiva trocada pela violência gratuita _ uma vez que a audiência era pública, a pauta de grande interesse e os produtores tinham o direito, como quaisquer cidadãos, de comparecer.

Mas o seu interesse em conhecer a verdade e a coragem em se manifestar serviu de alento, em tempos de “nada tenho com isso”.

Maiokowski, poeta russo, escreveu um poema, no início do século XX: “Na primeira noite, eles se aproximam e colhem a flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem. Pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada. Até que um dia o mais frágil deles entra em nossa casa, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada”.

Bertold Bretcht (1898-1956) escreveu: “Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso. Eu não era negro. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque não sou miserável.” Ao final: “Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo”.

Em 1933, Martin Niemoler, símbolo da resistência ao nazismo, também escreveu: “Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei.”. Mas “no quarto dia vieram e me levaram. Já não havia ninguém para reclamar”.

Há séculos as coisas se repetem, enquanto continuamos fingindo que não é da nossa conta, nada temos com isso, melhor a gente não se envolver, essa briga não é nossa. Ao lado, todos os dias, acontecem desmandos e abusos do poder. Pessoas são injustiçadas, caluniadas, têm seus direitos ignorados e olhamos pro lado, procurando ser discretos. As manchetes dos jornais se alimentam das tragédias cotidianas, mas pensamos estar seguros, se ficarmos quietinhos, pagarmos nossos impostos, não nos metermos em confusões. É importante não chamar a atenção, para não despertar a inveja e o ódio.

Quietinhos, submissos, um dia talvez descubramos que nos encolhemos demais, por isso nos empurram e pisoteiam, para afastar o último obstáculo.

Por isso foi importante o telefonema e a solidariedade. Porque, enquanto nos importarmos com os outros e alguém se importar conosco, haverá esperança para todos nós.

2 comentários:

Anônimo disse...

Marta, já havia lido a tua crônica no Diario Popular. É impressionante o teu crescimento como escritura. Fiquei encantada. Reli agora e espero que recebas este meu comentário.
Eu também sou do cordão dos que nada têm a ver com isso. É difícil empunhar uma bandeira sobre qualquer luta que não seja a nossa.
Estás certíssima. Cumprimentos e beijos da Suely.

Ruthe disse...

Marta!
Sempre podemos ajudar, quando as causas são justas, de alguma forma. Acredito,sim, é de que não é certo que fiquemos de braços cruzados vendo o "circo pegar fogo."
Beijos da Ruthe