10 de nov de 2007

A difícil arte de terminar

Gosto de livros com títulos estapafúrdios, jocosos, provocativos. Nas estantes das livrarias, são esses os que me atraem. Não deu outra: caminhando pelos corredores da Feira do Livro, entre tantos manuais de sabedoria, “Quando termina é porque acabou”, da editora Rocco, piscou o olho para mim, como dizendo “Me leva contigo”.

Procurei resistir, caminhei alguns passos, depois voltei ligeira, tirei o dinheiro da carteira, justifiquei para a atendente ”Pode ser que aprenda alguma coisa” e ela respondeu “Vai se divertir muito”.

“Estou precisando de inspiração, o livro pode ajudar”_ reforcei para mim mesma, com remorso pela intenção de fazê-lo furar a fila de todos os outros que esperam, comprimidos sobre a mesa-de-cabeceira.

Não é que na terceira página o livro me conquistou? Só por essa frase: “Tem certeza de que quer fazer essa ligação, senhor”? _ o recepcionista do hotel perguntou ao homem que, bêbedo e desesperado de amor, telefonava no meio da noite para a ex-namorada, já em outra.

Quem nunca acabou um relacionamento e fez papel de bobo, achando que, com uma forcinha extra, o outro vai perceber o quanto nos ama e a jóia que está perdendo? Quem nunca deu um penúltimo, um último e mais outro telefonema, na esperança de recuperar um passado que já passou, mas a gente não quer entender? Quem nunca voltou aos lugares onde poderia encontrar o ex, só para sofrer a desventura de vê-lo com outra?

Pior: no maior dos despeitos, alguns caluniam o ex-amor, na ânsia de prejudicar o novo relacionamento, tipo “se não for meu, não será de ninguém”. Ou saem por aí imitando a raposa e dizendo que as uvas estão verdes ou, no caso, que o outro até nem era tão importante, já estava mesmo enjoada e outros argumentos que só causam pena a quem ouve. Em histórias de amor mal-terminadas, quanto menos assunto, melhor. Se for pra falar, que aos estranhos só se digam coisas boas sobre o tempo que acabou. Só alguém de muita confiança pode ouvir as lamúrias e as exclamações de um coração maltratado.

No fundo, a frase “Tem certeza de que quer fazer essa ligação?” é uma sacudidela para o rejeitado acordar, cair em si e tomar jeito. Um chamado à dignidade. Perca-se o amor, mas não se perca a classe. Decerto aquele recepcionista do Hotel Paramount já tinha passado por uma dessas e sabia que tal atitude só levaria mais ao fundo do poço.

Não há argumento, choro, quebrante ou força divina que segure alguém que quer ir. A gente tem oportunidade de jogar todas as cartas, usar todos os truques, quando as coisas vão bem. Quando vão mal, o tempo expirou. Não adianta ficar repetindo o disco, batendo na mesma tecla. É triste, mas passou.

Sobra o que foi bom e isso não deve ser deturpado, com atitudes mesquinhas e impensadas, com picuinhas, pequenas maldades, que no fim só servem para o desertor concluir que de boa bisca se livrou.

E isso não é só no amor. Vale a frase para outros momentos da vida. Para sempre que a fúria e o despeito nos empurrarem a situações em que terminaremos fazendo papel ridículo.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!

Gostei demais desta crônica!O ser humano precisa ter consciência do seu valor, "dançar conforme a música..." Forçar situações não leva a nada.