20 de jan de 2008

Tempo, parceiro invisível

Pra simplificar, clico a letra M na agenda eletrônica. Procuro um número de telefone e M é a inicial da pessoa procurada. Se a idéia era facilitar, devia ter acrescentado as letras seguintes: muitos nomes começam com M. Mas, enquanto vou clicando, surgem nomes há muito esquecidos, lembranças sepultadas, pessoas que deixaram de fazer parte da minha vida, pelas mais diversas razões.

São nomes de médicos já aposentados, mecânicos que fecharam as oficinas, o marceneiro que só completou a cozinha após comparecer à audiência das Pequenas Causas, doceiras que pararam de trabalhar, o eletricista que se tornou relapso e nunca mais chamei, o outro do qual também desisti, quando passou a cobrar preços exorbitantes _ essa agenda é uma história de vida.

Fascinada, sigo clicando; agora, mais afoita, começo a apagar os nomes que perderam a importância ou deixaram de ser úteis. Com pesar, apago da memória o rapaz que consertava as persianas: será que se deu bem em São Paulo? E o representante dos aquecedores a gás: terá valido a pena a coragem de arrancar raízes, em busca do desenvolvimento da empresa?

Qualquer agenda se torna ineficiente, quando acumula informações desatualizadas - por isso uma faxina se faz necessária, de tempos em tempos.

Hoje, num rompante de coragem, começo a apertar teclas, apagando números de telefone que já nada significam. Primeiro, apago os óbvios, declaradamente inoperantes. O processo exige cuidado, pois, com pequena reciclagem, algum ainda pode servir. O importante é não abarrotar a memória com nomes e números que pertençam ao passado.

Entre as inúmeras indicações de prestações de serviços, saltam lembranças dolorosas, números que já não adianta discar, vozes que não mais responderão.

Parceiro invisível, o tempo desempenha importante papel em qualquer agenda. Pessoas que pareciam insubstituíveis foram substituídas por outras, em alguns casos com grande sucesso; endereços que pareciam eternos tiveram as portas fechadas, as paredes derrubadas. Situações antes aborrecidas ou constrangedoras - como o fato de ter colocado o tal marceneiro no Tribunal de Pequenas Causas, a fim de conseguir ter a cozinha terminada - agora despertam riso. Embora o riso já tenha sido difícil de conter, ao final da audiência: resolvido o impasse ao meu favor, como era de direito, saímos os dois juntos _ eu constrangida, ele muito à vontade. Na esquina do Fórum, despedindo-se com um aperto de mãos, ele ainda teve a petulância de dizer: “Gostei muito desse serviço, que não conhecia. Tem uns caras que me devem, também vou colocá-los na Justiça”. Falou assim, com a maior cara-de-pau. Aliás, parecida com a que o recebi, quando veio montar os móveis, conforme o combinado.

O tempo acomoda as coisas, cura as feridas. Só ele pra nos convencer da importância de obedecer ao seu ritmo, sem ficar preso ao passado, nem precipitar os acontecimentos. Só ele para nos fazer colocar novos nomes na agenda, dando crédito à esperança.

Um comentário:

Ruthe disse...

Querida Marta!
No começo de cada Ano Novo renovo meus armários, gavetas e a agenda.
Cada nome que deleto, vai junto uma história - algumas boas, outras, nem tanto.
Mas,também deleto, inconveniêncis passadas e, principalmente procuro renovar idéias ultrapassadas, para beneficiar o próximo e a mim mesma.

Beijos