2 de fev de 2008

Sem constrangimento

Quando alguém está doente, além de aprender a conviver com a doença, também precisa lidar com o constrangimento dos outros. Foi um amigo, em tratamento de quimioterapia, em virtude de um câncer, quem me lembrou desse sentimento.

Certas doenças, antes consideradas terminais, como o câncer, mexem com os sentimentos mais profundos das pessoas - talvez porque obriguem ao enfrentamento da mortalidade, coisa em que não é agradável pensar. Perturbadas, as pessoas manifestam comportamentos surpreendentes, sendo o mais comum a fuga, tanto por parte do atingido, como dos outros. É normal evitarem a presença e até o olhar da pessoa afetada, principalmente quando, em conseqüência da quimioterapia, essa perde os cabelos.

No entanto, é hora de encarar a verdade, sem constrangimento: que mal há numa perda temporária dos cabelos, se a luta é pelo bem maior, a vida? Outra verdade inquestionável é o fato de que, com o aumento da longevidade, será natural um número cada vez maior de pessoas portadoras de câncer. A terceira verdade é que, com naturalidade, é muito mais fácil levar qualquer situação. E a quarta e melhor de todas é o avanço da Medicina, graças ao qual inúmeros casos de câncer passaram a ter cura – desde que enfrentados no início.

Se essa parece uma forma simplista de encarar um assunto sério, mais que a maneira escolhida, deve importar a boa vontade em encará-lo.

Visto com naturalidade, o câncer será enfrentado com mais presteza, as pessoas deixarão de se esconder, fingir que não notaram os sintomas, adiar a visita ao médico. Obtido o diagnóstico positivo, tratarão de começar o tratamento, sem o conformismo ou o fatalismo com que ele muitas vezes é evitado. Milhares de mulheres morrem, todos os anos, com câncer nos seios ou no colo do útero, por demorar a tomar providências; pela mesma razão, morrem milhares de homens, com câncer na próstata. Morrem todos de medo, inutilmente.

Mas, se as outras pessoas se sentem constrangidas, sem saberem como tratar os doentes, muitos desses também dificultam a comunicação, adotando uma postura de “não está acontecendo comigo”.

Sinto-me à vontade para discorrer sobre o assunto, porque aconteceu comigo: tive um câncer no útero, foi extirpado, achei que essa etapa tinha ficado para trás, mas o marido e os filhos me convenceram a fazer a quimioterapia preventiva, que eu julgava desnecessária. No ano seguinte, apareceu uma metástase no pulmão, detectada logo no início, graças ao acompanhamento médico. Pensei: É brincadeira? – novamente fui operada, fiz quimioterapia, depois radioterapia. Enquanto isso, curti muitas coisas boas, pois um câncer não precisa ser uma sentença de morte.

Como não me retraí, penso que ficou menos difícil para as outras pessoas manifestarem a sua solidariedade. Porque o bom, enquanto tudo ocorria, foi a força e o carinho recebidos do marido, dos filhos, da família e dos amigos. E a consciência adquirida da mortalidade – não só a minha, a de qualquer pessoa - que faz com que realmente tudo se revista de um sentido maior.

5 comentários:

Ruthe disse...

Querida Amiga!
Por teres a "cabeça" que tens, nunca te senti doente. Também tive problemas, mas de outro tipo, mas como nunca me afetou, as pessoas também levavam na esportiva, como se costuma dizer.
Beijos

Cris disse...

Oi Marta!!!

Faz tempo que não nos vemos, mas acompanho sempre as tuas tocantes crônicas. Com certeza esta reflete aquilo que tentei aprender convivendo contigo: a de sempre assumir uma postura positiva na vida...

Maria Teresa Bielinski disse...

Oi Marta!
ACOMPANHO PELO jORNAL AS TUAS CRÔNICAS E ACHO QUE, ESSA DIFICIL ARTE DE NARRAR PENSAMENTOS COM SABEDORIA E SENSIBILIDADE,TU FAZES COM MUITA CLAREZA E SIMPLICIDADE,FOCALIZANDO MEMORIAS, LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA E CENAS DO COTIDIANO."Sem constrangimento" foi um grande e corajoso depoimento que, certamente, alcançará o teu objetivo: ajudar muita gente. Admiro-te como escritora e como o ser humano que és. Estou tentando aprender contigo.
Maria Teresa

Maria Teresa Bielinski disse...

Oi Marta!
ACOMPANHO PELO jORNAL AS TUAS CRÔNICAS E ACHO QUE, ESSA DIFICIL ARTE DE NARRAR PENSAMENTOS COM SABEDORIA E SENSIBILIDADE,TU FAZES COM MUITA CLAREZA E SIMPLICIDADE,FOCALIZANDO MEMORIAS, LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA E CENAS DO COTIDIANO."Sem constrangimento" foi um grande e corajoso depoimento que, certamente, alcançará o teu objetivo: ajudar muita gente. Admiro-te como escritora e como o ser humano que és. Estou tentando aprender contigo.
Maria Teresa

Renata disse...

Entrei no teu blog por acaso, mas parei pra ler, e adorei simplesmente !!! porque você disse tudo. Eu estou vivendo pela segunda vez uma quimioterapia, um cancer de mama com suspeita de tá no pulmão e uma metástase ossea. Penso muito nisto, de como as pessoas passaram a me olhar depois da doença, a reação das pessoas é exatamente como você descreveu. Eu também busco viver a vida de forma positiva e com certeza, as pessoas mudam o olhar e o jeito conosco quando a gente tem uma postura de enfretamento da doenca. Eu trato com naturalidade por exemplo usar peruca, ou estar careca na praia, e quando perdi um seio, usava uma prótese tranquilamente. É preciso seguir a vida, com amor, doçura, sonhos, e nào deixar que esta doença nos torne amargos.
abraço