9 de fev de 2008

Um Toque de Vida

A cada ano, mais de um milhão de mulheres recebe o diagnóstico de câncer de mama. Noventa por cento dos casos são curáveis, quando detectados logo no início. Por falta do hábito de auto-exame, por ignorarem os sintomas e pelo tabu que ainda cerca a doença, grande número de mulheres tem o diagnóstico confirmado já em estado adiantado.

Conhecendo de perto essa situação, em dezembro de 1999, em Pelotas, o médico mastologista Dr. Sérgio Tessaro, com o apoio de Rosa Maria Silveira e de um grupo de voluntárias, fundou a Associação de Voluntárias da Mama - Mama Vida. Desde então, através de encontros e palestras, a Mama Vida tem incentivado milhares de mulheres a conhecerem melhor o próprio corpo, a fim de perceberem quaisquer alterações e poderem fazer o diagnóstico precoce do câncer.

Motivados por esse trabalho, grupos de voluntárias foram criados em diversos municípios do interior do Rio Grande do Sul.

Em conseqüência, em 2004, o projeto denominado Um Toque de Vida foi aprovado e financiado pelo Ministério da Saúde. Através de parceria entre UFPEL (Universidade Federal de Pelotas), FAU (Fundação de Apoio Universitário), Hospital Escola da FAU e a ONG Mama Vida, em 32 meses, o projeto realizou mais de 19.000 exames clínicos de mama, mais de 13.000 mamografias, 422 cirurgias de mama, além de sessões de quimioterapia, radioterapia e atendimento psicológico às mulheres operadas.

O projeto também possibilitou a montagem do "Mamamóvel", o caminhão-baú que percorreu 23 municípios da zona sul do Rio Grande do Sul, realizando mamografias. O Mamamóvel é equipado com sala de espera, sala com mamógrafo, sala para processamento dos exames, banheiro químico e estação de tratamento de resíduos químicos.

De forma totalmente gratuita, Um Toque de Vida beneficiou principalmente mulheres da zona rural, que nunca haviam feito a mamografia. Em Santana da Boa Vista, cerca de 800 mulheres assistiram à palestra de esclarecimento.

Em fevereiro de 2007, terminada a verba concedida ao projeto Um Toque de Vida, os responsáveis iniciaram a montagem de um novo projeto, o qual foi encaminhado ao Ministério da Saúde para a manutenção do trabalho.

A continuidade do projeto constava de prevenção, diagnóstico e tratamento completo para o câncer de mama, durante 12 meses, para os municípios de Aceguá, Arroio Grande, Bagé, Camaquã, Candiota, Chuvisca, Cristal, Dom Feliciano, Dom Pedrito, Hulha Negra, Lavras do Sul, Pelotas, São Lourenço do Sul, Santa Vitória do Palmar e Tapes, com previsão de atendimento para 10 mil mulheres. A verba solicitada foi de R$1.400.000,00 (hum milhão e quatrocentos mil reais).

Embora tendo recebido toda a documentação comprobatória da importância do projeto, a área técnica do Instituto Nacional do Câncer negou a continuidade do mesmo, argumentando que o Fundo Nacional de Saúde não libera recursos para projetos de custeio, somente para investimento. No caso do projeto Um Toque de Vida, o investimento já havia sido feito no primeiro projeto, quando foram adquiridos os equipamentos necessários ao trabalho.

Contudo, se os órgãos governamentais se dispusessem a encarar com maior interesse o projeto, com certeza concluiriam que, entre outros fatores, ele representa grande economia para o Estado, pelo trabalho de prevenção. Isso sem falar que, engessado por mil inconvenientes, o Estado não consegue ter, em seu atendimento, a agilidade e eficiência obtidas pelo Um Toque de Vida, que também conta com o poder de mobilização do seu voluntariado, formado por mulheres calejadas de conviver com o drama do câncer de mama.

Detendo-se na importância do trabalho desenvolvido, com certeza os órgãos governamentais logo chegariam à conclusão de que tal projeto, além de ser preservado, deveria ser estendido a outras regiões do país, levando conhecimento e esperança a mais mulheres. Mas, enquanto isso não acontece, o projeto precisa da mobilização de todos nós, num mutirão de boa vontade, cada um se dispondo a fazer o que estiver em suas mãos.

Um Toque de Vida é a esperança para milhares de mulheres distanciadas dos meios urbanos. Por isso precisa que o olhemos com carinho, procurando outras alternativas. Quem sabe descobrindo outros caminhos, como a existência de verbas para custeio. Só o certo é que não podemos deixá-lo morrer, inertes e conformados.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
É uma felicidade sabermos que ainda existe muita gente preocupada com o próximo. Mas também é uma infelicidade sabermos que existem pessoas que não valorizam o ser humano, nem seus ideais.
Mas tenho certeza de que os Idealistas vencerão!

Beijos