15 de mar de 2008

A má conselheira

Entre as várias maneiras de exercer domínio sobre outra pessoa _ autoridade comprovada, cultura, educação, desejo sexual ou até mesmo a força _ talvez nenhuma seja tão perversa e eficiente como a do domínio exercido através da culpa.

Mães utilizam esse recurso, quando se referem aos anos dedicados aos filhos, às noites sem dormir, às coisas de que se privaram, em benefício deles – como se a maternidade não fosse escolha sua. Filhos fazem o mesmo, quando atribuem seus problemas pessoais às carências sentidas na infância – ainda que outros tenham passado dificuldades maiores, sem se tornarem marginais ou drogados. Diferentes tipos de relacionamentos são suscetíveis de provocar culpa e inúmeros são os caminhos para fazer com que alguém se sinta culpado.

Pessoas nessas circunstâncias são presas fáceis nas mãos das pretensas vítimas; culpados cedem com presteza e costumam permitir além do razoável, no intuito de expurgar seus pecados. Percebendo a vulnerabilidade, as vítimas se aproveitam da situação, fazem cobranças, insinuam compensações – como fazem as crianças e algumas mulheres adaptadas à condição de traídas. Nesse estranho paradoxo, a culpa cria monstros e tiranos.

Mas nós mesmos, num extremo masoquismo, costumamos nos atribuir culpas, sem precisar grandes razões. O pai se sente culpado pelo aperto financeiro; a mulher, pelo amor acabado; a mãe, pelo tempo passado fora de casa; os pais, pelo casamento desfeito; os filhos, por não corresponderem às expectativas paternas; a patroa, pelo guarda-roupa cheio; o executivo, por comprar um carro zero km. Cada uma dessas culpas dá origem a comportamentos que na maioria das vezes se transformam em becos sem saída.

Má conselheira, a culpa assimilada é fórmula perfeita para qualquer um se colocar em fria, espontaneamente. Má gestora, é comum observa-la a gerir vidas, com pleno consentimento de quem se sente culpado. E as pessoas são especialistas em se sentirem culpadas, mesmo sem motivo: culpam-se por estarem bem alimentadas e abrigadas, quando tantos vivem ao léu; culpam-se por terem acesso ao estudo; culpam-se por não amar o suficiente. Há quem se culpe até por ser feliz, em meio a tanta depressão.

No entanto, agir em função da culpa é se tornar refém das questões mal-resolvidas. Mobilizados por ela, é provável que tomemos decisões erradas, protecionistas, ainda que, à primeira vista, algumas possam parecer generosas.

Quando a culpa toma as rédeas, a conseqüência natural são atitudes precipitadas e ineficazes. Por isso, culpa é mal a ser enfrentado: se imaginária, que seja resolvida; real, que por ela nos responsabilizemos. Ou temos o poder – e a intenção- de reverter situações ou de nada adianta ficar chafurdando em remorsos, fazendo-nos de vítimas das circunstâncias.

De qualquer forma, culpa é carga pesada demais para arrastarmos pela vida. Melhor achar um jeito adequado de nos desfazermos dela.

3 comentários:

Ruthe disse...

Querida amiga!

Em todo o decorrer de nossa vida procuramos fazer o que acreditamos ser o melhor, mas o sentimento de culpa, apesar disso, nos acompanha como uma sombra, da qual não conseguimos nos livrar.
Qualquer desvio de conduta ou de personalidade, e já estamos com o enorme peso de culpa - errado!
Cada pessoa tem seu destino traçado e pouco podemos fazer.
Aconselhamos, damos receitas, mas com o livre arbítrio, cada um escolhe ou, já está escolhido, seu destino. Só podemos rezar!
Beijos

joão carlos disse...

Marta, gostei muito do teu artigo. Realmente a culpa nos acompanha por toda a vida. É muito dífícil se livrar dela, mas temos de tentar sempre. Creio que a insegurança, a baixa autoestima são fatores muito importantes para se sentir culpa. Por isso, devemos tentar gostarmos mais de nós e sermos mais seguros em nossas atitudes, pensando sempre que fazemos o melhor que podemos diante de determinada circunstância

Anônimo disse...

Li o artigo no Diário Popular.
Fui lendo e me surpreendendo com o rumo que o artigo tomava, uma arqueologia de sentimentos, que vão se desenvolvendo, transformando - e entortando. O sentimento de culpa retratado no artigo faz nós nos mal tratarmos, sermos injustos com nós mesmos. O artigo é de recortar e guardar.
Marcos Macedo.