22 de mar de 2008

A resposta

A internet tem a peculiaridade de, ao mesmo tempo, criar intimidade e conservar a distância. Garantido o anonimato, a pessoa se sente à vontade para manifestar os seus sentimentos.

A leitora perguntou a minha opinião sobre a possibilidade de alguém reverter a situação, aos cinqüenta anos, após vivenciar frustrações pessoais e profissionais. Ainda que qualquer resposta seja irrelevante, pois cada um só acredita na sua, a pergunta caiu redondinha e no endereço certo.

Aliás, só mesmo alguém com cinqüenta anos para se atribuir demasiada idade para quaisquer mudanças. Pessoas com sessenta e mais já se descobriram capazes de verdadeiras metamorfoses. Algumas realizadas unicamente pelo empenho pessoal, motivadas pela insatisfação com a realidade; a maioria ocasionada pelas circunstâncias da vida, pelas perdas a que estamos sujeitos, naqueles momentos em que tudo o que parecia eterno se esfarela. Nessas horas, pessoas corajosas descobrem que ou assumem as suas circunstâncias, ou são tragadas por elas.

Nesse momento da verdade, ocorrem milagres de transformação. Pessoas que nunca souberam se comunicar passam a interagir com outras, necessitadas de convívio social; mulheres acostumadas ao segundo plano se percebem boas administradoras; o homem solitário aprende a manejar as panelas e o aspirador de pó, no prazer da independência e na desmitificação do trabalho doméstico; a mulher envereda pelo caminho da arte, por puro diletantismo, e para sua surpresa encontra o sucesso e a apreciação do seu trabalho; outra descobre o encanto de fazer as próprias escolhas e lá está ela, mais uma vez, estudando as distâncias no mapa. São inúmeros destinos entrelaçados, histórias que se confundem e se cruzam, no respeito que as pessoas aprendem a desenvolver.

Nem todas alcançam sucesso imediato, algumas necessitam adaptações: não é fácil mudar roteiros preestabelecidos, abrir portas, dar murros em paredes de cimento. Às vezes bate o desânimo, a sensação de impotência, o impulso de voltar atrás, mas há caminhos sem volta, o sujeito aprende na marra, por isso levanta e continua, mesmo sem graça ou jeito. E um dia já está rindo, as coisas melhoram, as portas se abrem, o passado ficou pra trás e ele passou no teste.

O psiquiatra Irvin D.Yalom, no livro “O carrasco do amor”, conta a experiência de Marvin, homem de sessenta e quatro anos, que sofria de angustiantes enxaquecas, atribuídas às dificuldades sexuais. Através das conversas com o psiquiatra e dos sonhos que aquele conseguiu interpretar, Marvin chegou ao âmago das suas dificuldades. Inclusive, a sua modificação incentivou a esposa a também comparecer às sessões com o psiquiatra e de repente os dois se puseram a conversar como nunca e ambos aprenderam coisas jamais imaginadas sobre um e outro.

Então, se a pergunta é sobre a possibilidade de mudanças após os cinqüenta anos, a resposta é: acredito, sim, com certeza.

Só há um detalhe importante: a pessoa precisa querer e estar aberta às oportunidades. Isso significa que é preciso questionar-se sobre anseios pessoais e profissionais, detectar aptidões que possam propiciar mudanças e aquilatar quanto cada um está disposto a investir no processo; depois, ir à luta.

Nada acontece sem esforço, baseado na crença dos outros. É como regime para emagrecer: não basta ler a orientação; precisa fechar a boca e exercitar corpo e mente. Mas funciona, se a gente se empenhar.

Um comentário:

OLED disse...

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