4 de jul de 2008

Quando rir é a solução

Sogras se prestam a muitas anedotas. Pelo visto, tive sorte com a minha, pois, ao contrário da maioria das noras, acumulo inúmeras boas lembranças do nosso convívio. Às vezes, até rio com gosto, relembrando alguma das situações que vivenciamos juntas.

Éramos tão diferentes: ela, retraída, avessa a novas experiências, tímida até nas tarefas em que o seu desempenho era excelente; eu, afoita, carregando-a comigo, na leveza e inconseqüência da minha juventude. Pois, por qualquer inexplicável razão, ela me acompanhava em toda empreitada, com a maior boa vontade e confiança.

Certa tarde, como me convidasse para acompanhá-la ao cemitério, pois devia comparecer a um velório e não queria ir sozinha, respondi que, por coincidência, também precisava comparecer a outro, no mesmo local. Se me acompanhasse no meu, eu a acompanharia no seu. Sestrosa, ela argumentou não conhecer a defunta, uma velhinha muito bem relacionada, que eu afirmava ela reconheceria ao primeiro olhar no caixão. Naquela época, em Pelotas, parecia-me que todos se conheciam.

Ainda desconfiada, mas procurando acreditar no meu bom senso, lá foi ela comigo, sempre perguntando dados sobre a morta, a fim de se familiarizar com a situação. Chegando ao cemitério, primeiro nos desincumbimos do seu velório, onde tudo correu como o esperado. Logo após, dirigimo-nos à capela vizinha, onde encontramos muitas pessoas conhecidas, comprovando a minha afirmação de que a velhinha era muito bem relacionada. No percurso, ela continuava me questionando sobre o modo de agir, quais familiares devia cumprimentar, e eu a tranqüilizava, que só me imitasse, que tudo estaria bem.

Entrei na frente, muito decidida, ela logo atrás. Parada aos pés do caixão, fiz o sinal da cruz e uma breve oração. Quando ergui os olhos, contrita, como pedia a ocasião, dei com dois sapatos pretos de bico fino, na pose clássica. Estava no velório errado _ compreendi, apavorada. O morto era um homem. Enquanto fingia rezar mais um pouquinho, para formular um plano e uma saída honrosa, olhei rapidamente à volta e percebi, pelos familiares colocados dos dois lados do caixão, que devia se tratar de alguém também muito relacionado. Então, com grande naturalidade, cumprimentei a todos, seguida da estupefata sogra, que não entendia mais nada, mas seguiu beijando rostos e apertando mãos, na mesma ordem que eu, como combinado.
Quando saímos da sala mortuária, num fio de voz, como quem diz “em que situação me meteste”, ela balbuciou: _ Era um homem! Não me dei por achada e, fazendo-me de muito confiante, disse que não tinha importância, todos nos achariam muito gentis por haver comparecido ao velório do seu ente querido. Além do mais, ninguém sabia qual o nosso relacionamento com o morto, jamais imaginariam que nem o conhecíamos. Ela me olhou com ar de dúvida, mas teve a generosidade de não externar a sua opinião.

Dessa forma, essa se transformou em anedota de nora, para variar. Mas, em certos casos, rir da gente mesma é a melhor solução.

3 comentários:

Blog do Simeão disse...

Marta
Me fizestes lembrar que, em Melo-Uy entrei também num velório errado. Era para ser o de uma Tia da Dirce, mas o sapato era de homem.
Só não passa por coisas como essa quem não vai a velórios e, parece mentira: neles sempre tem coisas inesperadas...
Simeão

Blog do Simeão disse...

E nessas horas tenos que fazer força para não rir.

Ruthe disse...

Marta!

Sempre achei que a melhor situação é mesmo rir, quando nos deparamos com situações bizarras, pois o que fazer quando o acontecido aconteceu?
Quero também, aqui deixar registrado a empatia com minha querida Sogra, que em todos os momentos, de alegria ou de tristeza ficou sempre a meu lado.
Beijos