18 de jul de 2008

Retrospecto necessário

Em maio de 2004, quando a crise na agricultura e na pecuária se aprofundava, escrevi que tocava a alvorada nos campos, anunciando o despertar da classe rural.

Na ocasião, os agricultores tinham os silos cheios de cereais e aviltados os preços dos seus produtos; da mesma forma, a pecuária se encontrava em seu momento mais desolador. Apesar das notícias alvissareiras sobre o desempenho do agronegócio, dentro das porteiras a realidade era outra. Alguém ganhava muito nesse jogo, mas com certeza não era o primeiro elo da cadeia produtiva, esgarçado ao ponto de rompimento. Em Brasília, as justas reivindicações da classe rural, tidas como lamúrias, eram desconsideradas.

Inconformado com a situação, em Pelotas, RS, um pequeno grupo de produtores rurais havia formado o GTRURAL - GRUPO DE TRABALHO AUTÔNOMO DE PRODUTORES RURAIS – com a finalidade de encontrar uma saída para a crise desesperadora. Em Porto Alegre, estabeleceram contato com alguns pontos de venda, sugerindo uma parceria de diversos produtores para abastecimento regular do mercado da capital com carne nobre, novilhos jovens oriundos dos melhores rebanhos da Metade Sul do Rio Grande. Esses animais costumavam ter seu preço desvalorizado, vendidos em meio à tropa comum.
Na ocasião, ouviram de um supermercadista que, além de não pagar preço melhor por produto especial, não lhe interessava a idéia de uma organização para abastecimento regular, pois, em suas palavras, “na desorganização e desunião dos ruralistas está o nosso lucro”.

Bom serviço ele fez, com a sua franqueza, ao desnudar talvez a maior dificuldade da classe: a desunião e a conseqüente falta de mobilização. Esse foi o toque da alvorada, chamando à luta os homens do campo, pela necessidade de se fortalecerem e criarem lideranças políticas, a fim de que suas vozes fossem respeitadas.

Durante a busca de alternativas que viabilizassem o negócio, surgiu a exportação de bovinos em pé para o mercado árabe. Navios chegavam e rapidamente eram carregados, ensejando uma saudável competição. Alarmados, alguns frigoríficos reagiram; solicitaram uma audiência pública, a fim de impedir a continuação da exportação. Em meio à discussão exacerbada - enfim os produtores aprendiam a se mobilizar e a defender os interesses da classe – alguém falou o óbvio: “paguem o preço justo, que não lhes faltará carne”. Venceu o bom-senso e a exportação pôde continuar, rompendo o monopólio e ajudando a balizar os preços.

Prejudicados pela ganância de alguns segmentos e pela falta de apoio governamental, muitos produtores desistiram da luta, sem forças para esperar as mudanças; outros tantos continuam devendo a alma a bancos e a credores diversos. Outros, ainda, na ânsia de sobrevivência, sem pensar na sustentabilidade da cadeia produtiva, tendo encontrado preço melhor pelo produto historicamente desvalorizado, se desfizeram inclusive das matrizes.

Na escassez do produto, o preço do gado subiu. Da mesma forma, arroz e soja também tiveram seus preços adequados aos custos. O agronegócio firmou-se como o sustentáculo da balança comercial brasileira.

Em 2008, o fantasma da fome apavora o mundo civilizado. Nesse momento, esse retrospecto se faz necessário, para que o consumidor entenda a alta dos alimentos como conseqüência natural de anos de políticas equivocadas e desestimuladoras.
Propiciadas as condições, valorizado o trabalho rural, com políticas de incentivo e preços condizentes com a qualidade dos produtos oferecidos, não faltará comida na mesa. Se deixarem, o homem do campo faz o seu trabalho.

3 comentários:

Ana disse...

Cresci ouvindo exatamente isso, do meu pai. Ele ama o que faz, mas se sente desrespeitado com as políticas de exportação e importação de carne, do jeito como os preços da carne e dos insumos são manipulados e todas as demais dificuldades - algumas inerentes á atividade, outras geradas pelos desmandos dos governantes...
Mas se mantém fiel aos seus princípios e resiste bravamente, evitando os empréstimos, se desfazer das matrizes e tudo mais.
Vou imprimir e levar para ele ler!

José Nei disse...

Parabéns, Marta! Ótimo texto!
Interpreta e orienta, com maestria, o que se busca, há algum tempo, que o agroempresário entenda as flutuações que se verificam no mercado agropecuário. A apropriação deste entendimento, fará com que a "nau" da empresa rural não soçobre na procela e nem se deixe fascinar na bonança.
Siga à frente!
José Nei

Janete disse...

Prezada Marta,

Reforço tudo que você tão bem enfatiza no seu artigo sobre as sucessivas crises de comercialização que o setor agrícola tem sofrido.

Aqui no Mato Grosso, além dos problemas de mercados, precisamos lidar com as truculências do Estado nas tentativas de resolver as questões ambientais (vide matérias sobre “bois no colete” “bois piratas” entre outras).

A postura parcial do Estado, que não considera as próprias omissões e negligências na organização fundiária do Brasil e na preservação dos recursos naturais, dificulta a solução dos problemas ambientais. Seria mais lógico e eficiente, se buscasse a participação coletiva e agisse em favor do todo, onde se inclui o homem seus direitos e suas necessidades.

Gostaria de somar ao seu comentário um mea culpa por não conseguirmos nos unir mais fortemente em torno de interesses comuns; um protesto pela alienação do Estado na defesa dos agricultores brasileiros, inclusive na defesa das indústrias nacionais; e, uma convocação para que nos unamos em defesa de nossas vocações e nossas propriedades.

Se retrocedermos um século ou mais, vamos observar que os altos e baixos sofridos pela agricultura e pecuária, tem sempre por trás a hegemonia do capital e certa inconsciência do produtor.

Parece que nós produtores vivemos em um mundo a parte, debruçados sobre lavouras e pastos, determinados pela vocação e movidos pelo ideal de possuir a terra.

Ainda hoje, na era da globalização, das grandes corporações, enquanto as indústrias formam cartéis, se fundem além do permitido por lei, monopolizam mercados, nós produtores não percebemos o poder do capital que detemos em nossas mãos, continuamos “colonos” de grandes monopólios, não conseguimos nos agregar em torno de interesses comuns.

Parece que não percebemos que na atual conjuntura econômica, aqueles que não se unem, não criam entidades representativas fortes, também não abrem mercados próprios, perdem agressividade comercial, sucumbem ao grande capital.

Estamos passivos. Viemos ao longo do tempo entregues a nossa própria sorte, suportando o ônus de planos econômicos e sociais apoiados no setor primário, sofrendo uma descapitalização gradual que hoje retira parte de nossa capacidade de defesa.

A falta de subsídios agrícolas fortaleceu a competência dos produtores brasileiros, mas, de que servem essas competências, se tivermos que nos desfazer de nossas terras para sanar dívidas.

É preciso calcular os impactos sociais, econômicos e ambientais negativos, decorrentes da descapitalização do agricultor, do pecuarista.

É preciso evitar a visível concentração de terras nas mãos de grandes empresas (transferidas por conta do endividamento de pequenos e médios produtores); a concentração de indústrias na mão de meia dúzia de grandes empresas de capital itinerante (proteger mais as pequenas e médias indústrias, especialmente aquelas genuinamente brasileiras); conhecer os resultados que advém dessas concentrações, os resultados dos monopólios, da formação de cartéis que irão, cedo ou tarde, determinar os preços dos alimentos destinados ao consumidor interno, como determinaram os preços da @ do boi nos últimos 4 anos.


Na verdade, o que precisamos acima de tudo é de um Estado responsável, menos negligente e omisso, mais “protecionista”, capaz de defender os interesses da nação.

Precisamos de um Estado que planeje, elabore estratégias de médio e longo prazo que garantam alimento para o povo brasileiro e superávit para a balança comercial (assim como o setor privado primário vem fazendo ao longo do tempo com muita competência).

Esperamos que o Estado assuma responsabilidades, inclusive sobre os problemas ambientais no campo, reconheça sua parcela de culpa por falta de planejamento e estruturação na condução e organização das questões fundiárias e ambientais.

Queremos saber quem irá pagar pelos danos morais impostos a agricultores e pecuaristas que enfrentando desconforto e dificuldade, atenderam aos apelos de Programas de Governo, para ocupar novas áreas nas regiões Centro Oeste e Norte do Brasil e hoje recebem multas extorsivas e são tratados como bandidos.

Nós produtores precisamos sair da posição defensiva, reconhecer nossa força e a força do capital que detemos nas mãos, nos unir e começar a cobrar ressarcimentos por todos esses danos, antes que nossos patrimônios sejam expropriados ás custas de multas garantidas por Decretos de Lei ferozes e esfomeados por poder e domínio!

Janete Zerwes
Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso
Comissão de Produtoras Rurais
Coordenação em Tecnologia e Pecuária

BPW – Cuiabá – MT
Coordenação em Agropecuária