1 de nov de 2008

A louca de Albano

No meio da conversa, a velha tia perguntou se, por acaso, entre papéis deixados por mamãe, eu não teria uma poesia que ela desejava reencontrar: A louca de Albano. Começou a recitar a parte que recordava e logo lembrei alguns trechos. Era uma tragédia enorme, bem ao gosto da época. Respondi que não a possuía, mas poderia procurá-la na internet, o que de fato fiz, sem sucesso. Achei outras loucas e outros Albano, só não encontrei a que procurava.

Voltando para casa, comecei a lembrar de outras poesias que minha mãe gostava de recitar. Uma, especialmente, cabia bem ao romantismo grandiloqüente da minha adolescência. Dirigindo o automóvel em meio ao trânsito, fui forçando a lembrança, até que ela voltou, aos pedaços. Lembrei de mim, declamando-a, em voz melodramática:

Por vinte anos nessa furna escura,
Deixei dormir a minha maldição.
Hoje, velha e cansada de amargura
Minha alma se erguerá como um vulcão.
E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de amargura e solidão.

Por aí seguia a poesia, como praga rogada a alguém que mal desmesurado houvesse feito à dona de tanta imaginação. Quando me sentia injustiçada ou preterida _ como tantas vezes a gente se sente, na adolescência _ a dita poesia correspondia ao estado de espírito e servia como excelente válvula de escape. Proferida duas ou três vezes (com o cuidado de evitar assistência, para não fazer papel ridículo), a poesia tinha excelente efeito apaziguador, capaz de deixar qualquer um calminho, calminho.
Na terceira investida, estava de pazes feitas com o mundo. Ainda mais porque, ajudando com a entonação adequada a cada verso, tinha oportunidade de extravasar toda a indignação. Em “Sobre a tua cabeça ferverão”, por exemplo, quase tinha piedade do pobre coitado a quem dirigia os impropérios, embora ele jamais fosse tomar conhecimento deles.

Mas hoje, sem os arroubos da juventude, recordando os trechos mais fortes daquela poesia, penso que eu é que não desejava essa praga para mim: guardar rancor por vinte anos, passar todo esse tempo esperando que alguém provasse do mal que me fizera. Que furna escura, que nada: quero mais é sol, alegria, gente amiga à minha volta.

Mas a poesia seguia, lembro agora:
Maldito sejas pelo ideal perdido,
Pelas horas vividas sem prazer,
Pelo que poderia ter sido,
Pelo que deixou de ser.

Acredito que, com o tempo, acrescentei algumas palavras e surrupiei outras tantas, de acordo com a minha conveniência e humor. Ainda bem que, manipulando poesias, não aprendi a manipular situações e pessoas: imagine se ia culpar alguém pelo que poderia ter sido ou deixou de ser.

Hoje sei que só se caminha pra frente quando se deixa para trás o que incomoda ou deixou de importar. É como um pacote mal ajeitado, que de repente a gente se pergunta por que segue carregando, se afinal não vai fazer nada com ele. Larga no chão e descobre que, além de ter ficado mais leve, até a estrada ficou mais interessante, sem a preocupação com o pacote.

Mas, na ânsia de reencontrar a poesia, publiquei esta crônica, com o pedido, ao final, de que alguém me desse notícias da Louca de Albano. Prontamente atendida, descobri que não a encontrara, na internet, porque o nome da poesia era A doida de Albano. De inhapa, aprendi que Albano é um lugar na Itália. Bem, mas a poesia chegou e era trágica mesmo. Hoje, não seria politicamente correta.

4 comentários:

Anônimo disse...

Olá Marta, também escutei e ainda escuto algumas vezes minha mãe e tia recitarem juntas a Louca do Albano na verdade elas entendem por a Doida do albano um dia fiquei intrigado com a poesia enorme que elas sabem decorado e tentei encontrar na net o texto na integra então, depois de muito procurar, encontrei no blog da jornalista Flávia Duarte uma transcrição muito próxima da versão que escuto aqui em casa (difere em mínimos detalhes) não sei se já encontrou mas...

Segue o texto

Um abraço
Gáudio Jorge Costa.


"A Louca de Albano"

- Anda cá, meu filho, escuta: És amigo de sua mãe?
- Oh, minha mãe, que pergunta?
- Basta, meu Paulo, pois bem. Vai ver a velha Vicenza o amor que o filho lhe tem. Faz hoje 20 anos que teu pai morreu a golpe deste ferro, para meu mal e eu, a vir vingá-lo, fiz uma jura fatal...
- Uma jura? Mãe santíssima! Oh, minha mãe, o que jurou?
- Eu jurei por este sangue, que em ferrugem se tornou, que tu Paulo matarias, quem teu pai matou.
- E matas, meu filho?
- Mato.
- Matas, seja quem for?
- Mato.
- Ainda que esta vingança lhe roube do seio o amor?
– Mato.
- Tome este ferro, é Ricardo o matador.
- Ricardo, o pai de Maria? Oh, minha mãe, perdoai...
- Pela amante o pai esquece, filho ingrato, parte e vai, cumpre a jura ou sê maldito se não vingares a teu pai.
Nesta noite, tinto em sangue, com os cabelos no ar, o assassino de Ricardo, foi aos pés da mãe prostar o punhal com que jurara, do pai a morte vingar.
Riu-se a velha de contente e abraçou o vingador, mas que de súbito aparece na porta uma estátua de dor:
- Paulo, meu Paulo, perdi meu pai não vês? As lágrimas que aqui derramo assistiram ao triste fim. Quis falar-me e já não pode, com os olhos fixos em mim, expirou... "Vingança eterna". Tu vingas, meu Paulo, sim?
- Vingo, Maria, sossega, eu sei quem teu pai matou, vai morrer com o mesmo ferro que a pouco o transpassou.
Assim disse e a punhalada no próprio peito cravou...
Foge a moça espavorida, deixa Albano sem parar, chega a Roma no outro dia, por toda parte a gritar:
- "Quem me mata por piedade, quem me acaba de matar?"
E assim vagou três dias, sendo que no quarto enlouqueceu, quando passa o viajante, quando passa o Coliseu, vê a triste às gargalhadas, vingança pedindo a Deus...
- Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha...

fonte :
http://flaviadurante.blogspot.com/2008/10/louca-de-albano.html

Carla Fazendo Arte disse...

nossa! minha avó declamava essa poesia pra mim... adorava ouvir ela recitando!
"A DOIDA DE ALBANO", "BEIJOS", "OUVIR ESTRELAS, "O EMBALO DO BERÇO"...

Maria Heleuza Souza disse...

Tenho uma prima que a recitava também, em nossa época de criança. Nunca esqueci. É trágica e marcante!

Maria Heleuza

Y Fernandes disse...


O autor desse delirante poema "A doida de Albano" é o poeta ultrarromântico português António Xavier Rodrigues Cordeiro ( 1819 — 1896).

http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=7800