29 de dez de 2008

Depois do Natal

Na campanha de Natal, anualmente realizada pelos Correios, as crianças enviam cartinhas, dizendo o presente que gostariam de receber, e as pessoas interessadas se cadastram para realizar os sonhos. Imaginar-se-ia que, em se tratando de crianças, os pedidos seriam de brinquedos, bicicletas, até mesmo celulares, pela inocência em compreender que esses desencadeariam outros gastos.

Os pedidos, no entanto, surpreendem. Muitas crianças pedem brinquedos, como seria natural, mas outras tantas pedem roupas, sapatos e material escolar. Na campanha realizada em Porto Alegre, neste ano, uma criança pediu uma toalha de banho, “porque lá em casa só tem uma e todos se secam com a mesma”.

Há poucos dias, um médico comentava sobre as necessidades criadas por nós mesmos, esse tipo de coisas sem as quais vivíamos muito bem, obrigado, mas das quais agora não conseguimos abrir mão. O celular entre elas, naturalmente. Dizia que o amigo ligava para o celular, justificando com “precisava falar contigo”, mas na verdade não havia nenhum assunto imediato. Bem poderia esperar o final do expediente, não fosse a premência criada pela existência do celular.

Mas banho não é necessidade inventada, mania boba que se adquire. Banho é questão de higiene e até de aceitação na sociedade em geral. Sem banhos regulares, de preferência diários, o convívio costuma ficar prejudicado, principalmente na nossa cultura.

No entanto, é fácil falar sobre banhos diários, quando se tem um chuveiro quentinho, com água farta. E uma toalha seca, para completar o prazer. Chocante imaginar uma família, todos usando a única toalha. E uma criança pedindo toalha, em vez de brinquedo.

O mundo está cheio de pessoas carentes, milhões em situação de extrema miséria. Por maior boa vontade de que estivéssemos possuídos, jamais conseguiríamos solucionar todos os problemas e dramas que povoam o universo. Caso alguém se julgasse capaz e saísse por aí a realizar sonhos, logo se veria sem o necessário para si e os seus.

Ao nosso redor, porém, às vezes pessoas precisam de coisas banais, para elas inacessíveis. Coisas que, muitas vezes, representam o nosso supérfluo. E não se pense que só gente com certo nível econômico possui coisas supérfluas, como costumam constatar as surpresas patroas, ao dispensar o serviço de doméstica que pernoite no emprego. São caixas, bolsas e sacolas cheias, excesso que também poderia ter repassado, conforme ganhasse ou comprasse uma peça nova.

Com a proximidade do Natal, o sentimento de solidariedade toma conta das pessoas. As carências, contudo, não obedecem ao calendário. Nesse ano que começa, prometendo ser difícil, quem sabe experimentamos nos colocar no lugar do outro, entendendo as suas dificuldades, procurando contorná-las, cada um de acordo com suas posses, sem forçar além da conta, utilizando apenas o que realmente não vá fazer falta. Como dar a quem precise uma toalha de banho, que poderá ser aquela esquecida na gaveta, por ter um pingo de clorofina. Ou o dinheiro para a consulta médica imediata, o curso de qualificação para ingressar no mercado de trabalho, um par de óculos, a farinha e o açúcar para completar os ingredientes para o bolo do aniversário. A ajuda para consertar a máquina de cortar grama. O tempo para ouvir, sem interromper.

Talvez se descubra que, em qualquer época, solidariedade é bem de que todos necessitam.

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