2 de jan de 2009

Ciclos

O homem, jovem, bem-sucedido, bela família constituída, observou, como se contasse uma novidade:

_ Eu gostava mesmo dos natais da infância.

Julguei que o seu interlocutor fosse rir da obviedade da declaração, mas ele, ao contrário, falou: _ Eu também tenho saudade dos natais da infância. Aliás, tenho saudade é da infância mesmo _ completou, muito sério. Aí os dois sorriram. Quem não sente saudade da infância?

Para todos que tiveram a sorte de possuir uma família bem constituída, a infância foi mesmo um tempo bom. Lá, tínhamos os desejos adivinhados e as vontades satisfeitas, na medida do possível. No Natal, por exemplo, não precisávamos nos preocupar em comprar presentes para os outros, nem em enfeitar a casa ou preparar quitutes para a ceia. Como num passe de mágica, tudo aparecia à nossa frente. O mesmo ocorria nos aniversários, quando éramos a atração principal, em lugar de precisar organizar tudo, como hoje acontece, caso desejemos alguma celebração.

Mas esse é um dos inconvenientes da vida adulta, a necessidade de tomarmos conta de nós mesmos. Em compensação, quando crianças, precisávamos obedecer a ordens que não entendíamos, entre muitas outras coisas chatas, que nos enfiavam goela abaixo.

Assim, a infância é mais maravilhosa quando vista através dos olhos dos adultos; para as crianças, talvez tenha as suas inconveniências. Da mesma forma, ser adulto também pode ser gostoso e divertido, conforme as opções que nos proporcionarmos.

Na véspera do Natal, a dona da casa estava exausta. Esfalfava-se para atender aos desejos dos filhos, netos e bisnetos que, envolvidos em seus afazeres, chegariam à última hora para a ceia, esperando encontrar a acolhida tradicional: o pinheiro com os enfeites costumeiros, a escada decorada com guirlandas, o leitão assado.

Só que a responsável por fazer acontecer o momento mágico, nesses anos de dedicação e alegria em proporcionar o encontro familiar, perdeu parte das forças e, em conseqüência, o entusiasmo. Mas, alheia às suas condições físicas, continua tentando proporcionar aos seus o mesmo Natal de quando eram crianças, tempo em que tinha outra vitalidade e eles menos exigências.

O ciclo se fechará, se nenhum membro da família perceber a necessidade de assumir a organização do evento ou quem sabe dividi-la com outros interessados no prosseguimento das tradições familiares. Ou poderá representar o início de um novo tempo, se tiver a continuidade assegurada. Ciclos terminam, nas famílias, da mesma forma que nas vidas das pessoas. Em algumas, possuidoras de maior boa vontade ou sabedoria, dão lugar a outros ciclos, para a história continuar.

Cada final de ano marca o fim de um ciclo, daí a nostalgia. Mas novos ciclos podem começar, a qualquer momento. Basta aceitarmos a mudança de papéis _ ontem menino, hoje pai; ontem, o provedor, hoje o conselheiro _ e compreender que, se as situações mudam, devemos também mudar. Deixar o passado descansar, andar pra frente e assumir o compromisso de fazer com que este seja o nosso melhor tempo.

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