19 de dez de 2008

Lá no Basílio

Éramos sete filhos, como já contei. Sete crianças cheias de energia e ávidas por aventuras. Talvez por isso, às vezes, para obter um mínimo de descanso e escapar às extenuantes solicitações, mamãe precisasse se fazer de distraída e simplesmente deixar o barco correr. Desnecessário dizer que, atentos aos momentos de eventual fragilidade, tratávamos de aproveitar muito bem essas oportunidades.

Passávamos os verões na estância Santa Cecília, no interior do Basílio, como também já contei. Os verões eram compridos, pela escassez de alternativas de lazer, sem recursos de TV, internet e toda a parafernália da vida atual, sequer o telefone. Precisávamos inventar distrações, como as partidas de xadrez, à noite, e os jogos de canastra e escova. Mas sobravam os dias, longos, ensolarados, tempo à vontade para trabalhar com o gado, cavalgar, explorar os matos e sangas, depois esgotar o armário dos livros de mamãe, com leituras de preferência à sombra do velho figueirão.

Assim, para encher o tempo e saber as novidades da vizinhança, costumávamos visitar as casas próximas. Em geral, por medida de segurança, íamos só as três meninas, mais dispostas a demonstrar a boa educação recebida.

As vizinhas eram muito hospitaleiras e sempre nos ofereciam quitutes deliciosos, como frutas em calda e outras iguarias, produção caseira _ esse o motivo oculto das nossas visitas. Uma vizinha mais esperta, uma velha que morava sozinha, talvez para se ressarcir do prejuízo, costumava nos colocar no serviço. Mamãe ficava um pouco espantada, quando perguntava qual a graça de visitá-la e respondíamos, ingenuamente: “Ela nos ensina a escolher feijão”. Como, em casa, era uma luta para conseguir algum trabalho de nossa parte, era estranho mesmo. “Bem escolhidinho”, falava a velha, e obedecíamos, criteriosamente.

Numa daquelas ocasiões, contudo, os irmãos resolveram nos acompanhar, com promessa de não nos envergonharem. Mal chegamos, sem muito assunto a desenvolver conosco, a dona da casa nos ofereceu um creme que não agradou, já na primeira colherada. Bem-educados, tratamos de comer logo o doce, para nos livrar da situação. Um dos meninos, porém, só esparramou o doce na cremeira, disfarçando.

Ao notar a estratégia, a irmã mais velha ficou aborrecida e, aproveitando uma rápida saída da anfitriã, ordenou que comesse logo o doce. O menino se recusou e a pendenga começou, em frases sussurradas, ainda que furiosas. Como ele se mantivesse inflexível, ela, sem alternativa, pegou a cremeira da mão dele e, num vapt-vupt, comeu todo o conteúdo, antes que a senhora voltasse.

Quando retornou à sala, encantada por ver todas as cremeiras vazias, ela falou, muito gentil: “Gostaram da minha receita, vou servir mais”. E, sem nos dar tempo de arquitetar uma negativa, tornou a encher as cremeiras. Como condenados a trabalhos forçados, comemos tudo outra vez, acompanhados pelo causador do problema, que nem ele imaginara tal desfecho.

Depois, seu castigo foi o longo sermão sobre a obrigação de demonstrar bons modos e a queixa feita à mamãe, ao chegar a casa. Na verdade, ela não pareceu se importar muito, talvez revigorada pela pequena folga que a nossa saída em grupo lhe proporcionara. Mas, após aquele insucesso, preferimos rever os roteiros e as companhias, ao continuar as nossas perambulações.

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