7 de mai de 2009

Sob outro ângulo

Pela calçada costumeira, sem maior interesse, repetia o trajeto conhecido. De repente, num impulso, resolvi atravessar a rua e seguir pela calçada que circunda o Mercado Público, rumo à Praça Coronel Pedro Osório. Coloquei o pé na calçada e, como se alguém gritasse “Câmaras, ação!”, a rua adquiriu vida. À saída da porta lateral do prédio centenário, dois homens conversavam animadamente, enquanto pessoas passavam por um lado e outro, desviando-se, algumas sem interromper o assunto em andamento; numa das muitas portas das lojinhas externas, uma mulher examinava uma muda de laranjeira, fazendo perguntas à vendedora; à porta da cabeleireira, mãe e filha discutiam se era caso de cortar o cabelo ou só aparar as pontas.

Mudar de calçada foi como dar corda no cenário, só que _ visto sob novo ângulo _ tudo adquiriu outro interesse. Inclusive a Praça, onde logo estranhei uma árvore esplendidamente florida. Chegando perto, identifiquei-a como uma espirradeira, carregada de flores em tonalidade rosa forte. Linda. Embora não mais linda, talvez, do que a lá de casa, em geral despercebida, porque parte da paisagem costumeira.

É interessante como uma mudança de posição pode alterar o modo de ver. A gente está ali, todos os dias, se acostuma e deixa de enxergar. Chega um estranho e vê.

Acontece na rua, na casa, na vida em geral. Acontece até na política. Aconteceu com o deputado Michel Temer, quando compareceu a um fórum empresarial, no interior da Bahia, e recebeu um severo puxão de orelhas de Luiza Trajano, dona da rede Magazine Luiza. Ele e todos os políticos que agem como donos dos bens públicos, aliás.

É voz geral a contrariedade com os desmandos de grande parte da classe política. Na internet, circulam as mais desabonadoras críticas a alguns deputados federais e senadores, nomes e sobrenomes divulgados sem constrangimento. Contudo, pelo desconforto do deputado, parece que ele não havia percebido.

De repente, num evento onde talvez esperasse aplausos e, em lugar deles, recebeu críticas ferozes, o presidente da Câmara se deu conta de que não estava agradando. Enxergou. Sabe-se lá se por atingido em seus brios ou pelo receio de perder votos futuros, mas enxergou. Ocorreu uma mudança no cenário esperado, as coisas deixaram de ser familiares e ele conseguiu se ver _ talvez por um instante fugidio, mas conseguiu _ através dos olhos acusadores e desencantados dos milhares que o alçaram à posição que ele, como muitos outros, não soube respeitar.

Também nós, eleitores, necessitamos de uma mudança de prisma. Começamos a encarar com conformismo as notícias de abusos que nos chegam todos os dias, e esse é o maior problema. Anestesiados pelos escândalos repetidos e pela sem-vergonhice aceita com naturalidade, sobrou ânimo só para reclamar nas esquinas e denunciar através de mensagens na internet. Precisamos de um susto, uma sacudida, que nos obrigue a reagir e devolva a certeza do nosso poder.

Uma sacudida que nos retire da letargia e nos ensine formas de dizer ao mundo que não somos todos caloteiros, aproveitadores, nem desmemoriados ou idiotas. Uma sacudida que devolva o orgulho de ser brasileiro.

Um comentário:

Ruthe disse...

A maioria das pessoas se acostuma com um determinado ângulo e se acomoda.Muitas vezes,somos tentados a mudar, mas logo, logo caimos no mesmo anterior...


Adoramos a crônica - perfeita!
Beijos