29 de jun de 2009

Pior seria jamais descobrir

Quando se passa um tempo fora de Pelotas, como às vezes acontece comigo, é natural que alguns acontecimentos passem em branco, como se não tivessem acontecido. De repente, descubro algum fato importante de que não tomei conhecimento. Embora os jornais se acumulem, à nossa espera, na maioria das vezes só é possível passar os olhos por suas páginas, na pressa em voltar ao cotidiano. Assim, perco coisas importantes: aniversários, formaturas, homenagens, inaugurações e lançamentos. Principalmente, perco ocasiões de estar com amigos, em momentos dolorosos. Ruim é nem saber que tais fatos aconteceram. Pior seria jamais descobrir.

Imagine se não houvesse entrado na Livraria Mundial, conversado com o Marcos Macedo e ouvido falar sobre o livro da Eunice Damé Wrege. Jamais conheceria a sua história e a corajosa volta por cima, no depoimento que deve tê-la ajudado a costurar muitos retalhos de sua alma, no Patchwork de sua vida.

Embora conheça a Eunice desde a nossa juventude, nunca tivemos oportunidade de conviver. À distância, no entanto, quando ouvia falar de sua atuação profissional em algum caso dramático, sempre ocorria o pensamento: “Se está com a Eunice, está em boas mãos”.

Psicóloga, com o seu bom senso e empatia, Eunice com certeza ajudou muita gente a enfrentar dificuldades, inclusive a aceitar os revezes do percurso. Talvez não imaginasse, _ enquanto dissecava os problemas alheios, _ que a vida lhe preparava um teste para que pudesse demonstrar, na prática, as teorias desenvolvidas na protetora tranqüilidade do consultório. Pois, por mais que alguém se envolva e entristeça com os dramas alheios, o outro leva os seus, quando se afasta. Essa a grande diferença entre aquele que chega, buscando conforto e soluções, e o profissional atrás da escrivaninha, protegido pela distância que precisa manter.

Mas, de repente, os papéis se inverteram e lhe coube o de paciente _ e é essa experiência que divide conosco, tanto para exorcizar seus fantasmas, como para que outros compreendam que não estão sós, seja em sua dor, seja na revolta ou desânimo.
Encontrando em si a força que não sabia possuir, Eunice enfrentou, em diferentes estados de espírito, todos os problemas e perdas com que foi agraciada, desde que recebeu o diagnóstico de uma doença rara e de difícil tratamento, que iria exigir forças desmedidas, tanto dela como de todos à volta.

Ao passar pelas diversas etapas do tratamento médico, viu o seu mundo virar ao contrário, obrigando-a a se adaptar, primeiro com revolta e rebeldia, depois com coragem e bom humor, às mais estranhas situações.

Excelente aluna de si mesma, Eunice comprovou a ilimitada capacidade de superação do ser humano. Agora pode nos ensinar a lição da humildade: “a minha dor não é única e não é tão grande assim, que não possa ser dividida ou suportada, que afinal não sou única nesse universo a passar por isso”.

O livro de Eunice se chama Patchwork, Retalhos da Minha Alma, da Editora da Livraria Mundial. É o relato sincero, sem enfeites, de uma passagem de vida, tempo que foi preciso viver, porque não nos é dado determinar o que acharíamos justo que nos coubesse. Relato bem-humorado, de quem aprendeu a se divertir com as armadilhas desse estranho jogo chamado Vida.

2 comentários:

Ruthe disse...

Quando chego de viagem, uma das primeiras coisa que faço é ler o jornal, na maioria das vezes, com muito medo.Não que vá adiantar nada, mas sou assim, apesar de achar que devemos ter bons pensamentos e aceitar nossas provações, mas lutar contra elas também.

Anônimo disse...

Linda de morrer.