28 de ago de 2009

A coragem de denunciar

A mídia divulgou o escândalo envolvendo o Dr.Roger Abdelmassih, médico até então conceituadíssimo, especialista em reprodução assistida, responsável pelo nascimento de 5.000 bebês, tendo atendido cerca de 20.000 mulheres com dificuldades para engravidar.

Após anos de sucesso profissional e pessoal, a partir da denúncia de uma primeira mulher, outras se seguiram, fazendo cair a máscara fixada com a displicência de quem se julgava protegido pela posição privilegiada. Acreditando-se todo-poderoso, senhor dos destinos, manipulador de vidas, herói de gente que colocou na esperança de ter um filho a sua razão de viver, o médico passou a se considerar acima do bem e do mal.

Hoje se sabe, pelas denúncias divulgadas, que abusou de muitas clientes, de forma descarada, tanto física como moralmente, inclusive com propostas de fertilização isentas de qualquer ética. Até o momento, cerca de cinquenta mulheres apresentaram suas denuncias; quantas outras haverá? E por que mulheres adultas, casadas, com boa situação financeira (os tratamentos variavam entre 30 e 50 mil reais) se calaram, após serem assediadas, invadidas pelo profissional da sua mais extrema confiança?

Há algum tempo, vazou o escândalo de outro médico que abusava de meninos confiados aos seus cuidados pediátricos. Meninos e adolescentes calavam, perdido seu referencial, ao se sentirem abusados por pessoa da confiança de seus pais. Da mesma forma que, hoje se sabe, crianças e adolescentes continuam calando, quando vítimas de quem deveria protegê-los e orientá-los.

Mas mulheres adultas, de boa situação financeira, advogadas, psicólogas? Com o seu poder de convencimento, será que ele levou cada uma a acreditar que era única, caso de paixão repentina e incontrolável? Não imaginavam que outras pudessem correr o mesmo risco, por isso se calaram? Tiveram vergonha, sentiram-se sujas, acreditaram que tinham dado motivo e o estupro era a conseqüência natural de serem mal interpretadas? Fragilizadas pelo desejo de ter um filho, não podiam ir contra a pessoa que teria o poder de lhes proporcionar isso?

Talvez cada uma dessas mulheres tivesse as suas razões. Outras são suficientemente loucas para ainda agora escreverem cartas amorosas ao médico prisioneiro, consolando-o. Mas esse tipo de gente continua à solta por aí e mulheres, crianças e adolescentes precisam aprender a se defender. Homens, também, pensando melhor. Pois alguns maridos, sabendo dos avanços sexuais ocorridos no consultório médico, optaram por apenas mudar de profissional, como quem troca de companhia telefônica, quando os serviços não são satisfatórios. Outros se divorciaram, sem dar crédito à versão da esposa.

Dessa história triste, tire-se a lição de transmitir segurança aos que nos são próximos, filhos, alunos, amigos, para que tenham a coragem de denunciar. E que cada um de nós se fortaleça para não compactuar com quaisquer situações ultrajantes.

Pessoas fragilizadas se encolhem, desconfiadas de si mesmas. Pessoas fortalecidas têm coragem de reagir, gritar, espernear.

O Dr.Abdelmassih tem os serviços de um advogado considerado excelente. A promotoria não dispõe de provas materiais, até o momento; conta somente com os depoimentos das mulheres que tiveram a coragem de denunciar. Não é improvável que o médico consiga se safar da pena merecida, embora tenha aumentado o número de mulheres que se dizem vítimas. Contudo, seja qual for o veredicto final, o médico perdeu a idoneidade e dificilmente terá novas oportunidades para manipular vidas, da forma doentia como manipulou.

Mas o silêncio dessas mulheres, atribuído, em grande parte, ao “impulso consumidor da maternidade frustrada”, ensina que precisamos nos fortalecer, para não ficarmos reféns dos nossos sentimentos. Não é possível esquecer que tantas tiveram suas vidas destroçadas, enquanto a primeira não teve a coragem de denunciar.

Um comentário:

Ruthe disse...

A "vergonha" de se expor leva muita gente a esconder casos frustrantes e horrendos! Meus médicos,dentistas e advogados, permanecem com ajudante, na mesma sala, para evitar qualquer situação embaraçosa. Acredito ser o correto!