17 de set de 2009

Nunca antes

Nunca, como hoje, foi tão fácil e rápido o acesso à informação. Tudo se descobre, num piscar de olhos. Ou num acesso à internet. Com velocidade vertiginosa, correm notícias de falcatruas, políticos e várias lideranças têm seus nomes manchados, os podres descobertos. Nossos líderes _ ou aqueles que se propuseram a exercer essa liderança _ disseram ontem uma coisa, agora dizem outra, com a maior cara-de-pau, certos da impunidade, uns acobertando os outros, para todos passarem bem. Da mesma forma, nunca, como hoje, se foi tão condescendente, nem a sem-vergonhice aceita com tanta naturalidade. O que terá acontecido com aquela vergonha na cara de que falavam nossos pais?

Tomamos conhecimento dos escândalos nas altas esferas, a princípio estarrecidos, logo achamos natural. Trocamos emails, espalhamos denúncias, convencidos de que esse é o papel que nos toca. Somos os bonzinhos da história, aqueles que se julgam melhores, porque não usufruem das regalias, pelo menos diretamente.

Na América Latina, orgulhosamente democrática, líderes se organizam para se perpetuar no poder. Eleitos para um mandato, logo lhes sobe o poder à cabeça e tratam de mudar as regras do jogo, primeiro oficializando a reeleição, depois armando estratégias para a continuidade, coisa que não lhes sai cara, pois têm os cofres públicos _ o dinheiro dos contribuintes bonzinhos _ para lhes garantir a generosidade. Se as regras mudassem a partir do mandatário seguinte, seria mais fácil de acreditar na boa intenção, mas elas costumam beneficiar a quem teve a idéia e está no poder.

Um mandato, em geral, é tempo curto para alguém realizar tudo a que se propõe, inclusive porque é necessário considerar o período de adaptação; por isso, certas reeleições são bem-vindas. Terceiros mandatos passam a ser perniciosos, porque o líder tende a se considerar dono, esquecido de que está ali para servir, seja ao país, seja à organização que preside. No entanto, vários mandatos nos são enfiados goela abaixo. Mais que isso: contribuímos para o continuísmo, através do nosso voto. Somos os bonzinhos da história.

Que estranhas razões nos movem, quando perdemos o ímpeto de virar a mesa e mostrar que conhecemos os nossos direitos? Quando aplaudimos, mesmo contra o que sabemos correto? Quando não temos coragem de externar nossa opinião, com educação, mas com franqueza e verdade? Que razões movem todos os bonzinhos, quando não se permitem se posicionar contra os que se comportam mal, mas, ao contrário, contribuem para que tudo permaneça como está?

Ao mostrar descontentamento, os bonzinhos podem perder regalias, se der azar e a liderança se mantiver no poder. Se ficarem quietos, de preferência não se manifestarem, poderão conservar ou melhorar suas posições, seja qualquer lado ou partido que vença. Quem se manifesta, fala o que pensa, expõe as suas dúvidas e preocupações, é provável que fique marcado como pessoa perigosa, por não ser a maria-vai-com-as-outras com que certas lideranças gostam de contar. Por isso, muitos bonzinhos são omissos, não defendem suas verdades, aplaudem situações que sabem incorretas. Quem sabe tiram algum proveito, agindo dessa forma? Ou, não se posicionando, correm menos risco de rejeição?

Pensando bem, talvez os bonzinhos não sejam tão bons, afinal.

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