22 de set de 2009

O prazer de decidir

Meu sogro costumava contar uma história que havia acontecido com ele e considerava uma excelente aprendizagem: quando menino, talvez com oito anos, se apaixonara perdidamente por um carrinho que vira numa vitrine. Sonhara possuir o carrinho, circular com ele na calçada da Urbano Garcia, provocando a admiração dos pequenos vizinhos, ou fazer malabarismos de direção entre os abacateiros do grande pátio da casa. Seus pais, contudo, embora tivessem condições de realizar o desejo, consideraram que o sonho infantil não valia tantos contos de réis. Disposto a realizar o seu intento, começou a economizar, guardando inclusive todo trocado recebido da avó ou da mãe. Após longo tempo, conseguiu acumular a quantia necessária, descobrindo que o carrinho, por ser de preço excessivo, continuava na vitrine da loja. Com o dinheiro na mão, lá foi o menino realizar o seu sonho. Diante da vitrine, namorou uma última vez o lindo carrinho; depois, pensou, pensou e, em vez de colocar a mão no bolso para pegar a importância duramente economizada, deu meia volta e seguiu para casa.

Quando lembrava a cena, meu sogro repetia: “É preciso saber resistir”. Muitas vezes contrariei o seu pensamento, argumentando que deveria ter realizado o desejo, quanto teria se divertido com o tal carrinho. Ao que ele respondia: “Foi maior o prazer de conseguir resistir”.

Passaram-se anos e enfim entendi o que ele queria ensinar. Empolgada com a publicação do terceiro livro, surgiu a oportunidade de fazer o lançamento em São Paulo, justamente na Livraria Cultura, onde eu tentara, em outras oportunidades, sem sucesso, por ser insuficiente o número de pessoas conhecidas a quem enviar convites, na capital paulista. Pois, dessa vez, houve concordância, sem dificuldades.

Entre as opções oferecidas, pareceu mais interessante a do Shopping Villa Lobos, em Pinheiros, que eu não conhecia, mas todos me afirmaram ser excelente. Talvez por delicadeza, ninguém comentou o fato de que, dependendo do dia e do horário, o trânsito poderia ser problema. O filho comentou, pra ser exata, mas sem colocar maiores empecilhos, decerto também pela delicadeza em não atrapalhar o meu desejo.

Contudo, por cautela, decidi conhecer o shopping e a livraria, de antemão. Haveria o lançamento de um livro, naquela noite, e o responsável pelo serviço de bufê sugeriu que fossemos até lá, como seus convidados.

O convite era para as 19h, como seria o meu, mas saímos às 20h, de táxi, em concessão ao horário de pique. Logo o trânsito trancou e o táxi mais ficava parado que andava. Esse é o problema de São Paulo _ contornado, geralmente, pela escolha de horários para se deslocar a cada lugar. Nas horas de pique, melhor nem tentar. Só que o lançamento seria das 19h às 21h30´.

Após cerca de quarenta e cinco minutos, chegamos lá. Encantei-me com o shopping, com a livraria, apreciei o serviço de bufê, tudo maravilhoso, não fosse o trânsito, naquele horário. Para facilitar, o filho sugeriu fazer no sábado, às 11h da manhã, mas, por ser outubro, sábados e domingos estavam reservados às crianças.

Surgiu o nome de outra boa livraria, que se dispunha a liberar o dia e o horário desejados. No entanto, ao fazer contato, surgiram outras dificuldades, que fui solucionando à medida que surgiam. De repente, a perspectiva do lançamento deixou de ser prazerosa e se transformou em problema.

Há momentos, na vida, em que insistir é sinônimo de garra, determinação, capacidade de vencer obstáculos e atingir os objetivos. Em outros, perseverar pode significar teimosia, incapacidade para compreender a medida justa de cada coisa. Como quando se insiste em entrar naquela calça 40, comprada dois anos atrás, recusando-se a enxergar o resultado final.

Passei o final de semana pensando e então lembrei do meu sogro. Pena que ele não possa ouvir que, colocados prós e contra na balança, pesou principalmente o incômodo que causaria aos amigos que se julgassem na obrigação de comparecer, e por isso desisti do lançamento em São Paulo. Desisti numa boa, contente, da mesma forma que ele, quando olhou o carrinho que tanto queria e considerou que não valia a pena.

2 comentários:

Ruthe disse...

Precisamos resistir e insistir. Mas o difícil é saber quando! Feliz de quem acerta!

Ará disse...

Seu sogro lhe deu uma grande aula. Ainda bem que li sua cronica, pois embora tarde, tambem aprendi. Quando a gente insiste e não desiste pode até se tornar um chato. Entretanto ser destemido, perseverante, ousado, persistente e determinado quando se tem um objetivo claro e definido é vencer.
Resistir, no contexto do sogro, é a gloria de usar, abusar sem ter...
Ará