3 de out de 2009

Farrapos e farroupilhas



No dia 20 de setembro, assisti ao desfile dos cavalarianos, na cidade de Pedro Osório. Em trajes típicos, gaúchas e gaúchos desfilaram, em cavalos arreados como manda a tradição. As mulheres, contrariando o conceito de alguns centros tradicionalistas, optaram pelas bombachas, agora em versão feminina. Entre as crianças, foram feitas concessões ao conforto e ao frio, permitindo o bom-senso que algumas desfilassem com blusas de lã ou com jaquetas de nylon, o que decerto escandalizaria aos tradicionalistas mais radicais.



Sai muito dispendioso vestir um gaúcho a caráter, obedecidos todos os itens do vestuário tradicional, inclusos botas de couro, poncho pala e outros. Crianças crescem rapidamente e botas deixam de servir, de um ano para o outro, embora gaúcho que se preze não dispense botas e bombachas, o que obriga os pais a gastos renovados, a cada ano; de outros itens, contudo, às vezes é preciso abrir mão, ainda que com relutância.

Sem atentar para a situação econômica, alguns centros tradicionalistas se opõem à participação de pessoas que não estejam vestidas adequadamente. Esses decerto não permitiriam ao menino que desfilasse com sua jaqueta de nylon. Contudo, o sorriso orgulhoso do filho do capataz abrilhantou o desfile, na cidade de Pedro Osório.

A Revolução Farroupilha simboliza o grito de “Basta” do Rio Grande ao descaso imperial. Revoltados contra a posição secundária imposta à Província de Rio Grande de São Pedro, ergueram-se em armas gaúchos de todas as classes sociais, lutando como sabiam e podiam. No primeiro momento, é provável que alguns tenham se diferenciado dos outros, pelo esmero de seus trajes e montarias. Peões de estâncias, negros e “gaudérios” lutaram ao lado dos grandes estancieiros de então, recebendo o apelido de “farrapos”, por não disporem de uniforme e de equipamentos militares.

Maltrapilhos, muitos não tinham armas nem botas; para o ataque e a defesa, contavam com garruchas e adagas. Ao longo da luta, transformados em “farrapos”, todos se igualaram, unidos pelos laços da solidariedade e do ideal comum.

Inicialmente, o apelido “farrapos”, atribuído ao exército de revolucionários, foi de sentido pejorativo. Com o tempo, assumido com orgulho, deu nome ao movimento que, entre 1835 e 1845,agitou o Rio Grande, simbolizando o espírito indômito dos homens que foram à luta, armados e vestidos segundo o seu jeito e condição.

Se a revolução Farroupilha simboliza a união dos gaúchos, insurgidos por se acharem discriminados pelos atos imperiais, cabe qualquer espécie de discriminação, nos desfiles em que os gaúchos e as gaúchas de hoje, de todas as classes e condições sociais, desejam demonstrar o seu amor pelo Rio Grande? Que justificativa teria qualquer entidade tradicionalista para discriminar alguém por não estar vestido a caráter, quando os festejos de 20 de setembro pretendem justamente enaltecer o valor dos homens e mulheres que lutaram, sem armas ou roupas adequadas, para não serem preteridos ou discriminados?

Na cidade de Pedro Osório, desfilaram bebês aconchegados ao peito dos pais. Minha neta de um ano desfilou, com suas botas cor-de-rosa, aconchegada ao peito do tio _ que se revezou entre a filha e a sobrinha _ porque o pai carregava a bandeira e a mãe montava um cavalo faceiro em demasia.



Que sejam assim todas as comemorações farroupilhas, nos próximos anos, união de espíritos e demonstração de amor ao Rio Grande, lugar onde, pela tradição, jamais alguém deveria ser discriminado.



Um comentário:

Ruthe disse...

Este amor à terra é muito emocionante. Fico arrepiada apenas de olhá-los, tão garbosos !