4 de jan de 2010

A Estrada do Inferno

Neste início de ano, tive oportunidade de realizar um velho desejo: conhecer a estrada que liga Tramandaí a São José do Norte. Há muito fazíamos planos para percorrer esse trecho, conhecido como Estrada do Inferno, em razão das péssimas condições de trafegabilidade, mas o tempo foi passando, sem que tomássemos a iniciativa, e afinal a estrada foi asfaltada, recentemente. Dessa forma, parte da sensação de aventura se perdeu, mas a curiosidade se manteve, justamente pelos comentários de que o trecho era muito pitoresco.

Como íamos passar a entrada do ano em Xangri-Lá, pensamos inicialmente em fazer esse caminho, na ida, no que fomos desestimulados, com o argumento de que a estrada era deserta, o que poderia ser perigoso para um automóvel desacompanhado. Assim, fomos pela estrada convencional.

No retorno, contudo, um casal de amigos convidou para a “aventura”, sendo o convite logo aceito. Cerca de dez horas da manhã, saímos a caminho de Imbé, onde eles se encontravam, após nos abastecermos de água gelada, refris, salgadinhos e chocolates, “por via das dúvidas”. Juntos, seguimos rumo a Capivari do Sul, passando por Tramandaí, depois desviando em direção a Osório, conforme a indicação colhida no Google Maps.

Passamos pelo parque eólico de Osório, o maior da América Latina, com as 75 torres de aerogeradores girando entusiasticamente; seguimos pela RS 101; a lagoa grande, à direita, deve ser a dos Barros, segundo o Guia Quatro Rodas consultado. Logo após, o pesar pelas lavouras de arroz atrasadas, em virtude do excesso de chuvas. Passamos por Capivari, depois por Palmares do Sul, que lembra a paisagem de Santa Vitória do Palmar, com as palmeiras dispersas nos campos planos.

A partir de Bacopari, o asfalto apresenta verdadeiras crateras, “por causa do trânsito pesado dos caminhões carregados de madeira”, explica o dono do restaurante à beira da estrada. “Mas, se essa é a economia da região, as estradas não deveriam ser feitas para suportá-lo?” _ ponderamos entre nós, enquanto passamos por grandes extensões de plantações de pinus e matos de eucalipto. A estrada é esburacada e perigosa, em vista das crateras, até Mostardas.

Mostardas é uma cidade localizada num istmo entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, fundada por casais de açorianos, atualmente com cerca de 12.000 habitantes. É sábado, a pequena cidade está quase deserta. Não conseguimos boas informações turísticas, circulamos meio sem rumo, mas visitamos a igreja antiga, que está aberta. Concluímos que foi boa a idéia de almoçar à beira da estrada e continuamos a viagem.

Entre Mostardas e São José do Norte, o asfalto é novo, mas sem acostamento. A estrada não chega a ser deserta, há várias casas ao longo dela, mas, talvez por ser sábado, é escasso o trânsito de automóveis e caminhões.

Decidimos entrar em Bojuru, de onde também vieram antepassados de muitos pelotenses. Aqui nos damos conta de que não podemos nos estender em visitações, pois já são três horas da tarde e temos informação de que a última barca de São José do Norte para Rio Grande sai às dezessete horas. Assim, com pesar, não pudemos conhecer Estreito.

A essa altura da viagem, confesso o meu desapontamento. Imaginava uma estrada pitoresca, Lagoa dos Patos de um lado, no outro o Oceano Atlântico, mas à distância vemos apenas as dunas, oceano e lagoa fora do alcance dos olhos. Falaram tanto na beleza dessa estrada e agora os quilômetros se estendem, na paisagem plana e sem novidades.

Chegados a Pelotas, inconformada, corro à internet, atrás de maiores informações. Aí “cai a ficha”, num lampejo. Na verdade, faltou organização à nossa “aventura”, por engraçado que seja querer organizar a aventura. O bucólico teria sido entrar nas praias, conhecer os recantos ainda não poluídos pelo excesso de civilização, em lugar de passar voando pela estrada, entrando apressadamente em cada pequena cidade, esperando que ela mostrasse a sua alma a viajantes tão apressados. Inclusive, lembro agora, os comentários mais entusiásticos foram da parte de velejadores, que fizeram o caminho pela Lagoa dos Patos.

Contudo, só o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, com quase 40 km de comprimento e 1,5 km de largura, tombado pela UNESCO como Reserva da Biosfera, já teria valido a viagem _ embora talvez seja necessária a autorização do IBAMA para visitá-lo. Ou, segundo li na internet, deve-se fazer contato com a única agência turística de Mostardas.

Podendo ser considerado como Laguna, por ter canal de comunicação com o mar durante a maior parte do ano, a Lagoa do Peixe abriga grandes concentrações de aves migratórias. Também abriga mamíferos, como graxains, tatus, pequenos roedores, além de tartarugas marinhas, pingüins e lobos-marinhos, conforme a época do ano.

Assim, apesar de não ter correspondido ao esperado, valeu o passeio e a desmitificação do trecho. Ainda que, de acordo com a opinião de velejadores, a paisagem seja mais interessante vista pela Lagoa, caso a viagem seja por terra, uma boa idéia seria fazer o percurso ao contrário do que fizemos, para evitar o estresse do horário da última balsa. E, nesse caso, para maior calma e prazer, quem sabe pernoitar na Pousada Pouso Alegre, em Mostardas? São idéias, aventuras que valem a pena.

De qualquer forma, fica a certeza de que, antes de expressar qualquer opinião, é preciso conhecer melhor. Aliás, já estou pronta pra voltar.

Um comentário:

Ruthe disse...

Mesmo com tantos percalços, valeu à pena!O importante é conhecermos o que é nosso, nossa terra, nossa gente!