27 de mai de 2010

Mensagem a Garcia

A cada vez que alguém, encarregado de alguma tarefa, retorna com a informação de que não foi possível realizá-la, instantaneamente me vem à cabeça, como se escrita em letras garrafais, no quadro-negro, a mensagem a Garcia. Logo, parece-me ouvir a voz da mestra, ainda nos bancos escolares, contando a história do mensageiro Rowan.

Embora as melhores justificativas para o não cumprimento da tarefa sejam apresentadas, deixo de prestar atenção às desculpas e me refugio na história, espécie de incentivo, certeza de que ”de algum jeito conseguirei solucionar”.

Segundo o relato, em 1898, quando irrompeu o conflito entre Espanha e Estados Unidos pela posse dos territórios caribenhos, McKinley, presidente americano, percebeu a importância de estabelecer contato com o chefe dos insurretos, General Garcia, a fim de conseguir o seu apoio para o lado americano. Seu paradeiro, contudo, era desconhecido; sabia-se, apenas, que se encontrava em algum lugar do sertão cubano. Sendo impossível a comunicação por Correio ou telégrafo, ao presidente foi dito que um único homem seria capaz de levar a mensagem a Garcia. Conta a história que, chamado à presença do presidente, o Coronel Andrew Rowan recebeu a incumbência de encontrar Garcia, onde estivesse, e lhe entregar a carta. Sem questionamentos, Rowan colocou a carta num invólucro impermeável, amarrou-a ao peito e se pôs em marcha.

Atravessou o oceano num barco sem coberta e, após quatro dias, desembarcou na costa cubana; embrenhou-se pelo sertão, até chegar ao outro lado da ilha e cumprir a missão que lhe fora confiada, após três semanas percorrendo o território hostil.

Esse fato passou a fazer parte da história, imortalizado pelo artigo do jornalista Helbert Hubard, em 1899, num momento em que sentiu a necessidade de tirar do marasmo algumas pessoas ao seu redor. “O herói é aquele que dá conta do recado”, escreveu. Aquele capaz de entregar a mensagem a Garcia. Capaz de descobrir a saída, achar a tomada, apertar o parafuso, solucionar o problema. Sem se fazer de difícil ou se achar importante. Capaz de detectar a dificuldade e começar a agir, sem muitas perguntas ou colocação de mais dificuldades. Sem corpo mole, jeitinho maneiro pra ver se outro toma a iniciativa, já que a coisa não vai pra frente. Sem dispersão, demora até que tudo perca a razão de ser e a atuação não seja mais cobrada. Sem chegar, à última hora, com a notícia de que não conseguiu encontrar o que fora incumbido de trazer, justamente tarde demais para que outro consiga solucionar a situação. Sem tentar se fazer de invisível, para que nada lhe seja solicitado. Sem acusar de ineficiência a máquina com que conta para realizar o serviço ou clamar contra o telefone, que não tocou quando deveria tocar. Ou tocou demais, impedindo a continuação do trabalho.

O mundo está carente de gente capaz de levar a mensagem a Garcia. Estamos todos carentes desse tipo de atitude, em nossas vidas. Carentes de ação efetiva e disciplinada, de horários cumpridos, telefonemas retornados, compromissos assumidos. De dizer que vamos fazer e fazer mesmo.

Pessoas assim são logo reconhecidas. Sabe-se que nelas se pode confiar. Mostram empenho em realizar aquilo a que se propuseram; suas promessas são cumpridas. Merecem oportunidades. São os heróis do cotidiano, empenhados em dar conta do recado.

Um comentário:

Ruther disse...

Minha irmã diz sempre que é uma pessoa aposentada, mas jamais inativa, pois continua com muitos compromissos, precisando deixar, muitas vezes, alguns de lado.
A vida tem exigido muito de nós, e como a maioria está no mesmo barco, acredito que quase ninguém nota ou ao menos, espero, quando nos omitimos de algum evento.
Beijos