8 de ago de 2010

A lei que funciona

Após muito me aborrecer com a falta de empacotadores e com o tempo de espera, nas caixas de determinados supermercados, certo dia, num rasgo de lucidez, mudei a maneira de pensar.

Acontecia que, por comodismo, sempre que precisava fazer compras de gêneros alimentícios, dirigia-me ao mesmo estabelecimento comercial, a poucas quadras de casa. Entrava no automóvel e, sem refletir, dirigia-me ao estacionamento do supermercado próximo. Feitas as compras, cheio o carrinho, começava a tortura: demora na caixa; falta de empacotador; pedido de alguém para ajudar, em virtude do peso e da quantidade de produtos; vai-e-vem do empacotador, quando havia, ele constantemente requisitado para inúmeras outras atividades. Voltava para casa irritada e cansada, após transportar caixas com 12 embalagens de leite, diversos vasilhames de litro, além de vários pacotes com açúcar, café, essas coisas.

Se as mercadorias fossem poucas, decerto a atividade não pesaria, o que faz pensar que empacotadores não são tão necessários nas caixas rápidas, exceto pelo fato de que, para serem rápidas, eles se tornam necessários. Da mesma forma, se fosse mais jovem, nem perceberia o esforço realizado, o que também leva a pensar que, pelo menos nas caixas destinadas a idosos, gestantes e pessoas com problemas especiais, eles são essenciais.

Mas, enquanto eu dava murro em muro de cimento, insistindo no mesmo supermercado, o mundo girava. Certo dia, alguém me falou de outro estabelecimento comercial, um pouco mais afastado, é verdade, mas onde encontrei o atendimento desejado, empacotador em todas as caixas e o serviço de levar o carrinho com as compras até o automóvel. Sem precisar pedir? Achei inédito. Gostei.

Passados mais alguns dias, perdida a fidelidade ao primeiro estabelecimento, experimentei fazer as compras semanais no macro atacado próximo, o que eu sempre evitara, por acreditar que seria muito demorado, em virtude do seu tamanho. De saída, surpreendi-me com o número de pessoas que haviam tido a mesma idéia. Ao chegar à caixa, notei que havia várias em atividade, o que apressou o serviço. Sem contar que, junto a cada uma, o empacotador correspondente. Foi ali que caiu a ficha: a errada era eu. “Os incomodados que se retirem” _ pensei, lembrando vezes em que me aborrecera, insistindo em ser bem atendida onde não estavam interessados em me atender, quando poderia simplesmente andar mais um pouco e receber o atendimento desejado. Questão de parar de dar murros em muro de cimento.

Passados mais alguns dias, voltei ao primeiro supermercado, atrás de alguns produtos em falta. Consegui achar graça, ao ver que tudo continuava igual: poucas caixas em atividade, falta de empacotadores, clientes aborrecidos. Alguém falou na recente lei sobre a obrigatoriedade de empacotadores em todas as caixas de supermercados; outro comentou que, sem fiscalização e sem penalidades, de pouco adiantam as leis. Paguei as minhas compras e saí, sem me estressar, aleluia! Fui até ali por opção, como voltarei algumas vezes, quando for do meu interesse.

Enquanto me afastava, rindo de mim mesma, por ter demorado tanto a entender, pensei no grande número de clientes que observara no outro estabelecimento, gente que também chegara à óbvia conclusão: “os incomodados que se retirem”. Gente que fez a sua escolha, utilizando a lei da concorrência.

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