29 de set de 2010

Gente de bem

Essa é a boa notícia: há gente de bem. Ou do bem. Muita. Parece, às vezes, que o mundo está cheio de gente feia, mau caráter, pronta a nos puxar o tapete, louca pra nos ver no chão, desequilibrados, desacorçoados. Puro engano, isso só acontece quando erramos o caminho e enveredamos por becos escuros. Há luz fora dessas sombras.
Há gente do bem, em cada canto por onde se ande. Só se precisa pisar macio, olhar pros lados, não machucar calcanhares nem invadir espaços. Estão todos cansados, desconfiados, prontos a explodir. Duvidando de um agrado, olhando enviesado para quem lhes sorri sem motivo. Por isso, muita cautela, ao avançar.

Mas pessoas de bem circulam pelas ruas, cruzam por nós na calçada, oferecem a preferência na fila do supermercado, cedem o lugar no ônibus. É o menino que entrega a moeda encontrada no chão, a moça que devolve o troco recebido em excesso, o rapaz que se oferece para carregar as sacolas pesadas, o homem que utiliza os seus conhecimentos para abrir portas para outrem. É a mulher que leva o filho da vizinha ao colégio, proporcionando-lhe o mesmo cuidado e atenção que dedica ao seu, e aquela que se sensibiliza com os problemas alheios e se pergunta como pode ajudar. É o funcionário que cumpre com as suas obrigações e horários e aquele outro que atende aos chamados, sem se fazer de difícil; o enfermeiro atencioso, no pronto socorro; a professora consciente, apesar do salário curto; o médico que não se vinga no paciente, quando se sente injustiçado. São todos que se propõem a ajudar, sem esperar retorno.

As pessoas de bem se reconhecem e procuram se agrupar, inclusive para se defenderem do mundo hostil, sempre pronto a abusar da ingenuidade e fé na humanidade. Só há um problema com as pessoas de bem: confundem, muitas vezes, bondade com bobeira. Não dizem tudo o que pensam e, principalmente, jamais contam tudo o que sabem. Preferem ignorar o que salta aos olhos do que desmascarar alguém. Por isso, compactuam de boca fechada e coração apertado. Deprimem-se, para não cortar laços já rompidos.

Enquanto agem assim, os maus-carateres avançam, servindo-se de mentiras e subterfúgios, protegidos pelo véu de delicadeza e sensibilidade fornecido pelas pessoas de bem, que seguem passando a mão por cima, fingindo não ver o óbvio.

Mas a boa notícia é que, rolando, as pedras se encontram. Da mesma forma, pessoas de bem se reconhecem, apreciam e deixam de ser sós. Passam a integrar um novo universo, sem falsetas e meias verdades. Um lugar claro, onde as palavras voltam a ter seu significado verdadeiro e onde cada um se permite ser como é. Um lugar iluminado o suficiente para levar claridade à volta, fazendo com que mais pessoas entendam que ser do bem é mais que ser bonzinho.

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