17 de set de 2010

Sabores da infância


Quando meus filhos eram adolescentes, certo dia o caçula falou, ao ver a mãe novamente às voltas com ovos, farinha e açúcar, na copa da casa: “Acho que essa será a imagem que sempre terei de ti: de avental, fazendo esse bolo”. O tal bolo, que em sua versão original tinha recheio e deliciosa cobertura, era preparado, seguidamente, para o lanche da tarde, quando o seu formato mudava, passando a ser redondo, com um furo no meio, como aqueles de padaria. Nesse formato, da mesma forma ele deliciava a turma, nos acampamentos à beira da barragem. Garantia de sucesso, era também o escolhido para festejar batizados de tartarugas, aniversários de cães e piqueniques de todo tipo, durante os veraneios ou invernadas na Fazenda da Figueira. Como se vê, seria natural se a minha imagem ficasse associada ao tal bolo, personagem desta história.

Mas o tempo passou, os filhos cresceram, dediquei-me a outros interesses e imaginei que bolos e quitutes saboreados na infância houvessem ficado para trás. Foi quando, motivada pelo aniversário de 25 anos da Casa de Santo Antônio do Menor, resolvi realizar um desejo há muito acalentado pela diretoria e pelo grupo de apoio: colocar em livro as receitas comumente apresentadas nos almoços e jantares em benefício da entidade assistencial. A Casa de Santo Antônio do Menor foi fundada com a idéia de atender menores de rua. Nesse tempo eu a conheci, pobrezinha, sem recursos, carente de tudo; rica apenas de ideais e carinho para com as crianças e jovens que chegavam à sua porta. Após muitas dificuldades, pouco a pouco a Casa encontrou seu destino: hoje atende somente a crianças em fase pré-escolar, proporcionando-lhes alimentação, lazer, cuidados, atendimento médico, psicológico, odontológico e aprendizagens apropriadas a essa etapa de vida. Faz um excelente trabalho, graças ao apoio recebido da comunidade. Pôde crescer e se qualificar, graças à confiança inspirada. Dá gosto entrar por aquela porta e ver as carinhas sorridentes.

Para homenagear todas as pessoas, mulheres e homens, que trazem a Casa de Santo Antônio em seu coração, assumi a tarefa de organizar o livro. A idéia começou modesta, como a Casa de Santo Antônio. Cresceu, pouco a pouco, impulsionada pelas receitas que me eram ofertadas, com a generosidade que a Casa sempre encontrou. Comecei a experimentar algumas receitas e o sucesso foi tanto que a família já passou a desejar um segundo livro, para continuarem como deliciadas cobaias.

Mas, quando estava quase dando o livro por encerrado, após meses de dedicação, ouvi do filho mais velho: “Mãe, e o Bolo de Pedrinhas, que há tempos não fazes? Colocaste a receita no livro?” Surpresa pela lembrança, respondi que o livro já estava muito grande, por isso não a colocara. “Mas devias” _ ele falou, convicto, para logo acrescentar, com ar preocupado, como se recém se houvesse apercebido de algo: “E onde estão todas as tuas receitas? Estão juntas? Fáceis de encontrar?”

“Ah, estás com medo que me aconteça algo e nunca mais possas saborear as receitas que aprecias?” _ perguntei, fingindo-me muito chocada _ “Não te preocupa, elas estão todas em pastas”, acrescentei, magnânima. Mas, a essa altura, ele já havia se recuperado e, com a expressão mais deslavada, explicou: _ “Imagina, além da dor de perder a mãe, a perda de todas as receitas seria demais”. Após essa declaração de amor (ao Bolo de Pedrinhas), ele foi acrescentado ao livro Pelotas à Mesa, a simplicidade do sofisticado, com lançamento programado para outubro. Livro que desejo faça parte da história de muitas famílias, acrescentando sabor e lembranças especiais à vida de cada um. Porque os sabores da infância permanecem no imaginário, impregnando de doçura todos os momentos.

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