23 de abr de 2011

Cortina de fumaça

Pela rapidez com que assuntos relevantes desaparecem da midia, o cronista, quando possui coluna semanal ou depende da boa vontade dos editores para a publicação, pensa algumas vezes, antes de se referir a algum tema. Se bobear, até a crônica ser publicada, o assunto perdeu o interesse, dissecado nos jornais diários e nas revistas semanais. Por isso, muitas vezes o cronista deixa de comentar fatos palpitantes ou seu comentário surge quando a mídia já o esqueceu.

Alguns temas, contudo, são sempre atuais. Violência, por exemplo. Em 2005, a maioria da população respondeu com sonoro “não” à pergunta: ”O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil”? Desconsiderada a opinião do povo, volta e meia a polêmica retorna, na esperança de que passe, aproveitando o impacto de algum acontecimento sobre o emocional das pessoas. Como aconteceu agora, aproveitando o abalo causado pelo massacre em uma escola do Rio de Janeiro.

Por bom senso, antes que a idéia se firmasse, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), se posicionou contra nova consulta popular, reconhecendo que seria uma “cortina de fumaça” para os verdadeiros problemas.

Antes, o senador José Sarney, no embalo da comoção geral, prontamente apresentou ao Congresso Nacional a proposta de novo referendo sobre o desarmamento, pois “a opinião da sociedade pode ter mudado, diante da violência reinante”. Entrei no Google, rapidamente, e num só evento encontrei o senador rodeado por seis seguranças, que o protegiam inclusive dos jornalistas. “Façam o que eu digo, não façam o que eu faço” _ seria outro título adequado para esta crônica.

Mas querer convencer que a raiz de toda a violência reside na posse de uma arma é fazer pouco da capacidade de pensar das pessoas, que se sabem inseguras e desprotegidas, em todos os sentidos. Sem saber a quem apelar, em quem confiar.

Logo o massacre, efetuado por um jovem aparentemente desequilibrado, segundo opinião de quem o conhecia, deixará as manchetes e tudo continuará como sempre. As escolas continuarão sem segurança: um guarda armado à porta de cada uma imporia respeito e seria mais salutar o relacionamento com ele que a intimidade com o traficante. Os familiares das pessoas com problemas psicológicos e os drogados continuarão sem ter órgãos públicos aos quais recorrer, descartados rapidamente das instituições, por falta de assistência governamental. Os corredores dos hospitais públicos continuarão cheios de pessoas desatendidas, algumas com o travesseiro e a coberta trazidos de casa, pela inexistência de um mínimo de conforto. Contra essa violência não viria bem um plebiscito?

Mas aí já entraríamos em outra área e teríamos que ouvir as explicações de que não existem verbas para melhorias e para salários condizentes, tanto na saúde como na educação. Vez por outra, porém, ouvimos falar de verbas milionárias destinadas a projetos cuja importância não alcançamos entender. Por isso, é mais fácil erguer cortinas de fumaça, deixar-nos com os olhos ardendo, confundir-nos, para mudar o foco da nossa indignação e subtrair a capacidade de reação a leis e projetos que, massacrando o cidadão comum, continuam favorecendo aos legisladores e seus amigos.

Um comentário:

Ruthe Nudilemom Peters disse...

Estou cansada de tanta fumaça. Ela é própria de pessoas desonestas. Será que ainda teremos respostas, para nossos anseios?
Beijs