23 de set de 2011

Mas o tempo segue em frente

No meio rural, desde o final do século passado, grandes mudanças ocorreram. BR-116 asfaltada e instalação da rede elétrica, por exemplo, pareciam sonhos para a geração seguinte, no interior do Município de Pedro Osorio, extremo sul do Rio Grande, onde se passa essa história.

Certo dia, porém, após longa espera, foi liberado o trecho da estrada entre Pelotas e Jaguarão, diminuindo pela metade o tempo necessário ao percurso (a essa altura, para facilitar, as porteiras de arame já haviam sido substituídas por cancelas e depois por mata-burro). Mais tarde, através das torres da CEEE, chegou a eletricidade. Para compensar o tempo perdido, todas as propriedades rurais foram abastecidas com eletrodomésticos.

Na Fazenda da Figueira, a geladeira a querosene (que já havia sido modificada para gás), foi substituída pela duplex; a despensa e o açougue ganharam freezers. Aliás, o açougue foi o primeiro a ser beneficiado com a refrigeração adequada, fazendo alguns hóspedes falarem em levar para lá a cama, nas noites quentes, antes que a medida fosse estendida aos quartos.

Felizes da vida com a conquista da energia elétrica, alguns se desfizeram dos antigos geradores _ medida que se mostrou precipitada, já no primeiro temporal. Mal os primeiros raios cruzavam o céu, faltava a energia. E o pior é que então o freezer estava cheio, pois a facilidade de conservação da carne ocasionara a substituição do abate de ovinos pelo de bovinos. No caso particular, como os geradores haviam sido conservados, por medida de precaução, eles passaram a funcionar muito mais que no tempo em que não havia rede elétrica externa, pela impossibilidade de ficar com freezer e geladeira desligados.

Depois, o telefone via rádio se tornou acessível e, sem demorar muito, chegou o celular e logo a internet, através do modem de alguma companhia telefônica.
Enquanto isso, os rebanhos ovinos diminuíram, pela desvalorização da lã diante dos sintéticos, e até a carne de cordeiro ganhar status levaria certo tempo. Os fazendeiros passaram a pensar como empresários rurais, fazendo planejamentos e projeções para os próximos anos, sem prescindir de notebook e internet. Aumentaram as áreas de agricultura e o barulho dos tratores abafou o grito do quero-quero e assustou as emas, que foram pra longe, com seus filhotes.

Os novos tempos mudaram os hábitos e ficou mais simples comprar sabão em pó que perder horas, fazendo o sabão pra consumo próprio. Antenas de televisão denunciavam a novidade, nas casas dos peões, distribuídas pelo campo. As mulheres se deixavam ficar em frente à telinha desde o programa matinal da Xuxa e por isso novas necessidades de consumo foram criadas e as hortas foram abandonadas. Antigos hábitos de economia _ como cerzir as meias, com auxílio de um ovo de madeira, colocado em seu interior, ou confeccionar as roupas de todos os membros da família _ foram esquecidos. As crianças, desinteressadas dos boizinhos de ossos e dos carrinhos de madeira artesanais, passaram a sonhar com a Barbie e o Homem Aranha. As estradas melhor conservadas também proporcionaram mudanças nos meios de locomoção: para ir à cidade mais próxima, os funcionários trocaram o cavalo pela bicicleta, inicialmente, depois pela moto e pelo Chevette de segunda ou terceira mão.

Com tantas mudanças, a violência chegou ao campo. A paz se tornou lembrança de quando as portas permaneciam abertas, as casas dispensavam grades e o latido dos cães significava a chegada bem-vinda de alguém. Na sala, o hábito da leitura sofreu a concorrência da TV; escassearam as noites no alpendre, ninguém mais contou estrelas ou procurou o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e, por fim, a passagem dos satélites artificiais, no céu estrelado. No galpão, fascinados pela telinha, os peões substituíram os causos de lobisomens, estradas mal-assombradas e panelas cheias de ouro enterradas sob as árvores, pelos lances emocionantes da novela das oito.

Mas, se perdeu em romantismo e folclore, o campo ganhou em eficiência; a atividade rural virou Agronegócio e se tornou responsável por grande fatia da economia nacional.

Com muitas coisas boas, outras ruins, o tempo seguiu em frente.

Nenhum comentário: