28 de out de 2011

A lição que se aproveita

A Líbia, país ao norte da África _ palco de muitas lutas e abuso de poder por parte de vários outros povos, inclusive europeus _ obteve a independência em 1952, ocasião em que um líder religioso foi coroado rei. Teoricamente independente, era forte a influência econômica dos Estados Unidos e do Reino Unido, autorizados a manter tropas em seu território. A descoberta de jazidas de petróleo, em 1959, tornou-a ainda mais atraente aos olhos estrangeiros.

Em 1969, revoltado com a opressão da monarquia pró-ocidente então vigente na Líbia, o chefe militar Muammar Khadafi liderou a revolução que ocasionou a queda do regime monárquico. Ironicamente, alçado ao poder, implantou a ditadura mais longa da história da África e dos povos árabes. Responsável por vários atentados, inclusive internacionais, financiou revoluções e terroristas.

Após 42 anos de regime de terror, em fevereiro de 2011, incentivados pela derrubada do poder no Egito e na Tunísia, os líbios iniciaram, nas ruas, um movimento de protesto contra o longo governo do ditador. Logo o levante popular se transformou em guerra civil, ocasionando a fuga do ditador, em agosto, e a sua morte, em outubro.

Assassinado por homens de seu povo, imagens de sua morte circularam pela internet, num extravasamento do ódio acumulado em décadas de opressão. Ferido, mas ainda vivo, Khadafi sofreu atos de barbárie, atrocidades amplamente divulgadas, após ser capturado e mesmo depois de morto.

Mas Muammar Khadafi, como qualquer líder ou cidadão comum, não teve somente o lado perverso ou daninho, tanto que conquistou seguidores fanáticos, em seu país, e a certa altura da história conseguiu a aprovação de vários líderes mundiais que, interessados em estabelecer negociações com o país rico em petróleo, não tiveram pejo em posar ao seu lado, em fotos sorridentes.

Político astuto, soube usar os interesses e vaidades alheios a seu favor e, até certo ponto, deu ao povo árabe a impressão de que se preocupava com ele, fortalecendo a economia, ao nacionalizar a extração do petróleo, os bancos e as empresas estrangeiras.

“Morto pelas mãos da revolução”, como foi anunciado ao mundo o seu assassinato, sua morte pretende significar “o fim da tirania e da ditadura” _ por acaso, as mesmas razões que o alçaram ao poder. Resta saber como se portarão, no futuro, esses que o executaram, com tanto gosto.

O poder corrompe, com facilidade; dá a falsa ilusão de que se é dono do coletivo, principalmente por culpa dos outros, que deixam acontecer, como seguidamente o fazem. E fazem-no por razões que vão da incompetência, passando pelo comodismo, até a esperança de, sendo solidários, também se locupletarem. Tudo isso mesclado ao jogo de vaidades, bem articulado pelos espertos, capazes de convencer os tolos de que são mais que marionetes, utilizadas para ressaltar a arte de quem as maneja.

A história se repete e continuará se repetindo, pela característica humana de acomodação e consentimento, enquanto ardem os olhos dos outros. Mas em cada história se aprende um pouco e nessa a lição é a força da mobilização em torno de uma causa, quando o povo entende que chega de abusos e descobre que o poder de mudar está em suas mãos, como a história do mundo nos mostra, em significativos capítulos. Aí o povo sai às ruas, em protesto, insurge-se pela internet ou em artigos na mídia, mostra o seu descontentamento e avisa que é hora de mudar.

Um comentário:

Ruthe disse...

Vamos ver como se comportam os novos líderes, porque, geralmente, caem nos mesmos erros - a história tem nos mostrado,claramente, que fazem a mesma coisa ou pior!
Beijos