30 de dez de 2011

Outras virão

Como um bebê chegando à família, cada novo ano tem o dom de despertar ansiedade e criar expectativas. Como se, a partir desse momento, tudo pudesse mudar. Para melhor ou para pior, nunca se sabe.

No caso do nenê, é natural que as expectativas sejam enormes, os pais criando um mundo de fantasias, certos de possuírem a fórmula mágica para formar um adulto feliz, equilibrado e bem sucedido. Com o passar do tempo, o guri ou a menina cresce, assume a direção da sua vida, mostra que sabe o que quer, em geral nada do que os pais projetaram. Pais sensatos, amorosos, aceitam a reviravolta em seus planos e até riem de si, contentando-se com o pacote que lhes coube, algumas vezes melhor do que o esperado.

Já com o novo ano acontece algo que seria engraçado, se não estivéssemos dentro do filme: entra ano, sai ano, continuamos fazendo planos, esperando mudanças que desejamos aconteçam por milagre, acreditando piamente nos lindos votos que todos externaram, na última quinzena de dezembro. Votos cheios de otimismo e boa vontade, que ninguém avisou que dependeriam da nossa participação para se tornar realidade.

Saúde? Precisamos correr atrás, cuidar do corpo e da mente, manter o check up atualizado; não abusar de drogas, bebidas nem cigarro. Amor? Só aprendendo a escolher os parceiros, praticando a generosidade, a alegria e o bom humor. Sucesso? Exceto para uns poucos privilegiados, precisa dos neurônios funcionando a todo vapor e de uma boa dose de transpiração e concentração. Felicidade? Da mesma forma que o sucesso, não cai do céu; exige outro tanto de trabalho e empreendedorismo, sendo coisa que se constrói, tijolo por tijolo, como a casa dos sonhos, sem garantia de resistência às intempéries.

Então, estamos entendidos: os lindos votos de Feliz Ano Novo não possuem selo de garantia. O trabalho duro para que se transformem em realidade depende de cada um.
Mas a parte boa é que não se precisa esperar a virada do ano para dar uma sacudida na vida. Melhor e mais sensato será, a cada noite, revisar os erros e acertos do dia, para fazer diferente ou repetir, no dia seguinte. E não levar desaforos demais para a cama; esforçar-se para aprender a reagir, antes de partir para os antiácidos.

Não esperar dos outros mais do que podem proporcionar, mas reparar se o comportamento não muda com quem sabe exigir; aprender a também requisitar, se for o caso. Ser amigo, gentil e generoso com quem entende essa linguagem, mas precavido e pé atrás com quem dá com uma mão e tira com a outra. Árdua aprendizagem, que não cabe num só ano de esforço. Serviço pra toda vida, talvez, com chance de muitas recaídas, lágrimas e desencanto.

Se, apesar de todo o empenho, o ano tomar outro rumo, lembre que ele pode se comportar como o bebê que prepara surpresas, sem que se tenha a quem reclamar. E aí a gente vai juntando os caquinhos, quando o imprevisto nos nocauteia; ou atirando foguetes e nos acreditando poderosos, quando tudo corre melhor que o programado.

Mas, em qualquer situação, não vale se sentir injustiçado, capacho que a vida brinca de pisotear. Melhor se saber parte de uma história em andamento, com muitos lances ainda por acontecer. E pouco importa esta noite em que o ano muda de nome; outras virão, pra que todos tenham oportunidade de encontrar o caminho e refazê-lo, quantas vezes for necessário.

Um comentário:

Ruthe disse...

Amei esta Crônica. Bem própria para um final de ano!
Felicidades para toda esta, linda, família!
Beijos