1 de fev de 2012

Qual é a surpresa?

A presidente Dilma ficou indignada e pediu ao Ministro da Saúde “providências imediatas”, ao saber do falecimento do secretário de Recursos Humanos do Planejamento, que teria sido vítima de omissão de socorro em dois hospitais particulares do Distrito Federal, ao sofrer ameaça de infarto. Seu plano de saúde não sendo conveniado com aqueles hospitais e não tendo consigo dinheiro ou cheque, naquele momento, para pagar a caução, o secretário teve o atendimento negado; recebido no terceiro hospital, era tarde demais.

Uma história triste, realmente, digna de comover a presidente e todos nós, cidadãos brasileiros. Mas essa não é uma história vulgar? Não morrem milhares de pessoas, às portas dos hospitais ou à espera de serem chamados, por meses a fio, para operar algum órgão vital? Ou será que a saúde vai bem, obrigada, como alguém falou antes, dizendo que até gostaria de ficar doente, para ser atendido pelo SUS, em determinado local?

Pois, atendido pelo SUS, o homem foi hospitalizado, mas aguardou inúmeros dias para operar a perna quebrada, ocupando o leito que fazia falta a outros, a intervenção adiada, a cada vez que aparecia um caso mais urgente. Passou 30 dias aguardando, enquanto os parentes, gente humilde, se alternavam no acompanhamento, fazendo malabarismos para não desatender seus empregos.

Também pelo SUS, o velho foi hospitalizado e a família recebeu a notícia de que era câncer no pulmão, estado terminal. Revezaram-se a filha e a neta, também por cerca de 30 dias, acompanhando-o. Ao fim desse tempo, o velho foi transferido para outro hospital, onde mais exames foram feitos, até a conclusão de que o “câncer” eram manchas próprias de fumante inveterado e o velho podia ir para casa, como foi, sem maiores explicações ou desculpas.

Outro sofreu um acidente grave e teve o pé muito machucado. Imediatamente, procurou o atendimento do SUS, onde recebeu o diagnóstico de que precisaria de 30 sessões de fisioterapia e ficaria bem. Ficou o agricultor sem poder trabalhar, por longo tempo, submetendo-se á fisioterapia, paga a custo por ele, pois na cidade de interior não havia esse tipo de atendimento pelo SUS. Após o período programado, voltando ao SUS, com o pé mais inchado que nunca, estando o primeiro médico em férias, teve de outro o diagnóstico de que o caso era de operação. Deprimido pela dor, pelo sentimento de impotência e a falta de recursos econômicos, aceitou a orientação da esposa de procurar um médico particular. Ouviu dele que o caso era mesmo de operação, mas o tempo e o dinheiro investidos em fisioterapia haviam sido postos fora, por não ser o recomendado.

Pena que essas histórias não são produtos de alguma imaginação fértil; antes fossem. Verdadeiras, acontecem próximas a nós, em geral sem o nosso conhecimento. Mas neste Brasil de faz-de-conta _ quinta economia do mundo _ elas se repetem, diariamente, e o máximo que fazemos é perguntar o nome dos responsáveis, para passar longe deles. Só que as pessoas que mais precisariam de atendimento público eficiente, aquelas sem condições de arcar com planos de saúde particulares, são as que mais sentem na carne a incompetência e o desinteresse, tanto do sistema como de muitos profissionais que, diante do enfermo carente, esquecem o juramento feito, na emocionante formatura.

Por isso, embora triste, não causa espanto a ineficiência do socorro recebido por um membro do governo. Milhares de cidadãos brasileiros convivem com ela, todos os dias, sem ter a quem se queixar.

Um comentário:

Ruthe disse...

Estes acontecimentos trágicos, deixam a gente muito assustada e inconformada, pois os recursos existem, mas ora são disvirtuados, ora ressaltam a incompetência dos profissionais.
Que tristeza!