28 de fev de 2012

Trapalhadas femininas



Como a idéia era passar quinze dias em Punta Del Este, a mulher começou a organização da bagagem alguns dias antes. “Bagagem?” Os homens já se ouriçaram, sei. Das mulheres, ao contrário, sinto a solidariedade. Principalmente de todas as que já viveram a experiência de um apartamento alugado, seja em que praia for.

Apartamento alugado pressupõe o transporte de vários itens: no mínimo, duas mudas de lençóis para cada cama, dois jogos de toalhas de banho por pessoa, mais duas de rosto avulsas, sem contar as de praia e dois guardanapos de copa. Tudo isso já enche uma bolsa, naturalmente.

A mulher desta história, como tantas que devem existir por aí, também “precisa” levar torradeira elétrica (quem sabe a cafeteira?). Além dos copos para espumante e uma petisqueira, pois temporada que se preze inclui receber  amigos e alguns proprietários optam por guardar seus melhores copos, com medo dos inquilinos, que muitos não sabem cuidar do que não lhes pertence. Assim, pagam um pelos outros. Ah, falta o secador de cabelos, aquele grande, potente, e dois rolos de papel higiênico, óbvio. “Papel higiênico?” _ pergunta o marido, acostumado a ter tudo nas mãos, a tempo e a hora, graças à “premeditação” da dita esposa. “Não há lá pra comprar?” _ alfineta, recebendo um olhar de “sei das coisas”. E, com tais cuidados, a segunda bolsa está cheia.
   
A mala dele e a dela, ambas de tamanho médio, já estão prontas com as roupas que ela considerou indispensáveis, muitas que irão apenas passear, na opinião dele, baseada em experiências anteriores. Fechada na véspera à noite, a mala dele pernoita no corredor, junto com as duas bolsas e o saco plástico com os dois travesseiros da NASA novos em folha, que só irão se sobrar lugar. A mala dela é fechada no último momento, o que possibilita acrescentar uma bermuda dele e duas cuecas, entregues à última hora.

Prontos para partir, a mulher lembra a bolsinha das pinturas, que completa com o shampoo, o condicionador, o filtro solar, as escovas de dentes, a pasta e o fio dental. Corre para pegar o computador. Ufa! E ainda falta a sacola com livros, lápis de cor, adesivos e material para a neta,  que criança precisa de distração. É nesse ponto que o marido, até então alheio aos preparativos, começa a estrilar.


Aí chega a hora de encher o automóvel. O marido apresenta as suas prioridades, a mochila com o seu computador sendo a menor delas. Sem querer abdicar das escolhas, a mulher se apressa a levar tudo até o automóvel, sob os protestos masculinos. O funcionário consegue acomodar as coisas de um e de outro no porta-malas e os dois partem, reconciliados. “Tem água gelada?” _ ele pergunta, lá adiante. “Tem” _ ela responde, gloriosa. Mulher organizada, essa.



Chegados ao destino, entram na garagem do edifício e ele retira tudo do carro. “Ué, cadê a outra mala?” _ ela pergunta, sem acreditar. “Deixei a minha” _ pensa, sentindo-se injustiçada, após tanto empenho. Mas, por razões que talvez só Freud explique, foi a dele que ficou esquecida no corredor da casa.

E, só pra completar, não havia sequer um restinho de papel higiênico em nenhum dos três banheiros; os travesseiros foram importantes, mas a torradeira não era   necessária; a neta adorou todos os livros; a compra de um coador de pano solucionou a falta da cafeteira; os amigos do terceiro andar emprestaram mais copos; o marido concluiu que só precisa de uma camisa, se alguém se encarregar de lavá-la à noite, mas julgou necessário adquirir um ventilador. Ah, o filho trouxe a mala. E a nora descobriu que a sogra não era tão organizada como se fazia, porque esquecer a mala do marido ainda vá, mas a bolsinha da maquiagem nenhuma mulher que se preze esquece.

6 comentários:

Rosana disse...

Adorei o artigo e... o seu inconsciente! Parabéns! Se a gente não pode oficialmente fazer estas coisas, o nosso inconsciente pode! Sua descrição está perfeita. O que dá vontade é de, na hora deles pedirem a água gelada a gente dizer que não tem, mas... isso só reforçaria a idéia de que levamos toda a casa e esquecemos de uma coisa tão básica!

Paula disse...

Oi Martha!
Só para te dizer que demos boas risadas com tua crônica, muito boa, parabéns!
Toda vez que vamos viajar é isso tb. Parecia que estava vendo a cena acontecer.
Um bj, Paula

Rose disse...

Hehehehe... é bem assim!!! E o pior é que não importa se serão 15 dias ou apenas 1 semana. Muitas vezes chego a fazer listinhas para não esquecer de nada. E, por mais que reclamem da quantidade de bagagem a carregar, acabam por agradecer quando sentem necessidade das "bobagens" que lembramos de levar. Bjosss

Ruthe disse...

Acho que já vi este filme!!! Que bom que não estou sozinha!

Beijos

Ruthe

Marta disse...

Tinha certeza de que as mulheres me entenderiam...Bjs

Patricia disse...

Adorei!!! Achei que só acontecia lá em casa hahahaha