17 de mar de 2012

Compaixão e tolerância


Como o assunto era polêmico, as opiniões se dividiam, naturalmente: enquanto alguns consideravam os ensinamentos religiosos essenciais à formação de pessoas de bem, outros acreditavam na necessidade de transmitir princípios éticos. O primeiro grupo ressaltava a importância de cursar um colégio religioso, onde as crianças teriam oportunidade de receber noções de amor ao próximo; o segundo grupo julgava importante a ética assimilada na convivência com os pais e familiares.

A discussão se prolongava, sem chegar a consenso algum, como é costume acontecer. Por comodismo, fiquei na platéia. Cada um acha consolo onde lhe convém. Que bom pra quem tem a religião pra se apoiar, nas horas tenebrosas. Minha mãe tinha essa fé e nela encontrava conforto. Eu, embora às vezes me pegue pedindo socorro a algum ser superior em que penso não crer, acredito em valores éticos como condição para a paz de espírito.

Por isso, aborrece o discurso de pessoas que, por praticarem alguma religião (seja qual for), acreditam-se donos da verdade ou melhores que outros, que seguem as leis de seu coração, procurando ser justos, solidários, corretos com os funcionários ou com os patrões, atentos aos compromissos assumidos, respeitando o que é dos outros, embora sabendo lutar pelos seus direitos. Fazem isso por acreditar que é o certo, não por receio de serem punidos por uma força superior. Mas, sendo “politicamente incorreto” questionar abertamente os ensinamentos recebidos desde sempre, as pessoas calam suas dúvidas ou disfarçam seu ateísmo, para não chocar aos que pensam que, agindo bem aqui, garantirão um lugar no céu.


A discussão ao redor da mesa, como previsto, não modificou nenhuma maneira de pensar, o que não faz diferença; basta que as pessoas sejam sinceras e coerentes com suas crenças. Mas, por acaso, logo após, ao retomar a leitura do livro em que a jornalista Sonia Bridi, correspondente internacional da Rede Globo, conta a sua experiência na China, cheguei ao ponto em que entrevista o Dalai Lama, em seu refúgio na Índia.

E o Dalai Lama diz que “há muitas religiões e diversos tipos de fé, mas todas as religiões falam a mesma linguagem, apesar da filosofia diferente”. Que “o mundo precisa de religiões diferentes, porque uma religião não é suficiente para satisfazer essa variedade imensa de povos”.

Quando a jornalista pergunta se é possível ter espiritualidade sem fé religiosa, o Dalai Lama responde “seja um crente ou não crente, essa pessoa tem valores interiores, que são a bondade, os sentimentos ligados à compaixão. E os valores são essenciais para ser uma pessoa feliz, construir uma família feliz, uma sociedade feliz. Somos animais sociais, o que nos une como grupo é o carinho, a afetividade. Portanto, afeição é o principal fator para desenvolver adequadamente o corpo, a mente, toda a vida. Crianças que crescem em famílias cheias de amor e compaixão são, geralmente, mais saudáveis fisicamente e mentalmente, têm melhor desempenho na escola e são mais felizes do que as crianças que foram privadas de afeição em suas famílias”.

E continua: “Uma vida sem religião é aceitável, mas sem afeto humano nossa vida será miserável. É o que chamo de “ética secular”. Não vinda da religião, mas de acordo com nossas próprias experiências”.

Com mais respostas do que precisava, interrompi a leitura, que a noite já ia adiantada. “Importa que o objetivo final é o mesmo: amor, perdão, compaixão, tolerância” _ ele ainda falou. “Mas se a mensagem parece tão simples, por que é tão difícil de assimilar?”, pensei, já quase dormindo.

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