18 de mai de 2012

A vida é combate


Peça licença ao poeta, nos momentos de aperto: “A vida é combate que aos fracos abate...” _ repita, baixinho, até a força voltar.

Antonio Gonçalves Dias nasceu no Maranhão, em 1823. Neste poema, chamado “Canção do Tamoio”, ele fala ao menino: “Não chores, meu filho; não chores, que a vida é luta renhida. Viver é lutar” _ e por aí continua. Imagino-o, repetindo os versos, como para convencer a si mesmo. Ou para acalentar o menino que em seu interior ainda se debatia, ora valente, arrojado, ora cansado de tantos embates, desejoso de se entregar, deixar as coisas correrem, parar de dar socos em muros de cimento. Como acontece a qualquer um, em algum momento. Porque é certo que, às vezes, a vida exige forças que o sujeito pensa já não ter.

Mas, dizer que “a vida é luta renhida, viver é lutar”, é concordar que todos, em maior ou menor grau, têm batalhas para travar. E felizes os que têm períodos de trégua, para renovação das forças, porque a muitos não é dado esse privilégio. Um leve olhar pros lados desnuda as cargas pesadas que tantos carregam, com forças retiradas sabe-se lá de onde.

E é essa a lição nas entrelinhas: você não está sozinho. Com momentos, dias, meses de descanso, todos têm o seu tempo de travar batalhas. Seja contra as armadilhas da vida, seja contra a incompreensão ou as artimanhas de outros, seja contra você mesmo. Para muitos, a vida é combate mais ferrenho do que a nossa imaginação é capaz de conceber. E não se iluda, ao olhar para os outros, pensando nas vidas maravilhosas e sem preocupações que devem ter. Essa vida cor-de-rosa que a nossa imaginação empresta aos outros, tanto mais rosada quanto a nossa situação estiver difícil, é pura ficção.

Só que as pessoas não saem por aí se queixando da sorte madrasta que dá uma coisa e tira duas, ou puxa o tapete quando a gente pensa que se aprumou e agora a coisa vai. O sorriso do vizinho não quer dizer que mal algum o aflige, nem a determinação de alguém em sobreviver significa que não tem o coração partido, talvez para sempre. As paredes de todas as casas escondem misérias, tristezas e dor. Guardam também alegrias, apoio e esperança, e isso é o que dá forças para resistir, quando o vento vira e ondas furiosas ameaçam o barco, aquele de aparência frágil, que só resiste pela determinação do barqueiro.

“A vida é combate” e vive melhor quem aceita as regras do jogo e se dispõe a aproveitar todos os momentos bons, armazenando forças, em cada convívio agradável. É “luta renhida”, por isso não sobra tempo para queixas ou desânimo. Mas, ao contrário do que aconselha o poeta, é válido ceder ao pranto, sempre que a dor sufocar. Lágrimas lavam a alma e, depois delas _ como sol que se apresenta, após a chuva _ vem a paz. Só não ceda demais, lágrimas anuviam a visão. Imagine se atrapalham a visualização de sorrisos amigos, retardam abraços muito apreciados, cortam o convite prestes a ser feito, sufocam a apresentação do rascunho de discurso que já ia ser apresentada. Imagine se, pensando no pior, você perde de viver.

3 comentários:

Anônimo disse...

Excelente crônica.

Uxa disse...

Muito boa a crônica, Marta, e como li hoje, a gente vem a o mundo sem pedir e quase sempre morre sem querer, então, aproveitemos o intervalo!!
Boas batalhas pra todos nós. Mesmo que, olhando à volta, ache as minhas batalhas bem desimportantes! Bjos saudosos. Uxa

Cris Palombo disse...

Verdade Marta. Quem não tem suas lutas? O importante é aprender com elas.
"Tudo tem seu lado positivo...Até mesmo as piores coisas..."
Forte abraço. Cris.