17 de ago de 2012

Êta carga pesada


Os anos vividos, além de ajudarem a acumular experiências e sabedoria, contribuem para acumularmos coisas que começam a pesar, a certa altura da vida, como todos estamos cansados de saber. A idéia de mudar para um apartamento, por exemplo, pode parecer inviável para alguém que more numa casa enorme, atulhada de móveis e objetos conservados há gerações. Há quem ache mais fácil se acomodar do que enfrentar o desgaste da mudança, com a necessidade de se adaptar ao espaço menor. Palmas pra quem tem a coragem de se renovar.

Alguns guardados continuam importantes, ao longo da vida; a maioria é esquecida no fundo de gavetas ou no alto de armários, limpos uma vez por ano, quando o dono se alegra ao rever a máquina a vapor com que tanto brincou, quando guri. A máquina tem uma história, naturalmente, e por minutos proporciona o retorno à infância e traz de volta o pai, alegre, chegando de viagem, com o presente para o filho. Depois, volta pro lugar costumeiro.

Pessoas guardam objetos os mais estranhos. Papai conservava, no armário de ferramentas, um peniquinho azul - do tipo utilizado pelos bebês, antes da invenção do redutor de assento sanitário _ onde tinha porcas, parafusos e pregos de todos os tamanhos e feitios. Homem prático, imagino que guardasse o peniquinho mais pela utilidade que encontrara para ele que pelas recordações que acaso despertasse. Mas, morto meu pai, na hora sofrida da divisão dos bens existentes na casa, despertou riso a observação de um dos irmãos, como se receoso de que outro tivesse a mesma idéia: “Eu só faço questão do peniquinho azul do armário das ferramentas”. O interessado levou o peniquinho, naturalmente, além de alguns móveis e objetos de decoração, mas estou por perguntar, qualquer dia, que fim levou aquele inusitado objeto de desejo.

A verdade é que cada um de nós é movido por estranhos desejos e obsessões, considerados como disfunção de comportamento, quando nos outros, mas plenamente justificados, quando percebidos em nós. Seguidamente, assisto a um programa na TV sobre pessoas que acumulam coisas das quais não conseguem se desfazer: roupas sujas misturadas com as recém lavadas, eletrodomésticos ainda nas caixas, brinquedos velhos junto à papelada que sobrou da universidade, tudo misturado, na maior confusão. O programa consta de uma ajuda psicológica e prática, fornecida por alguém que vai pra colocar ordem no caos, com a permissão do bagunceiro. Pra encontrar o sofá e oferecer assento à visita já é um problema, tão atulhado ele se encontra _ o que não é de admirar, quando alguns se perderam até da cama, pela necessidade de utilizar todas as superfícies.

Fico tão aflita com a incapacidade do acumulador de determinar o que lhe serve e o que deseja descartar, que nunca chego ao final do programa, para saber como ficou a casa e a vida da pessoa, após esse enfrentamento. Mas o mal-estar é a motivação para, no dia seguinte, encarar outra gaveta ou prateleira e prosseguir na operação “vida mais leve”.

E o bom é descobrir que as coisas que nos pesam podem fazer a felicidade de outros, por suprirem as suas necessidades e alimentarem as suas fantasias. Além de beneficiar os próximos, livros podem ser enviados para bibliotecas em formação ou para bazares beneficentes, onde serão vendidos, da mesma forma que roupas e objetos que perderam o interesse para nós. E, fantasiando, sempre imagino a euforia daquele vestido de baile esquecido no armário, ao entrar novamente num salão, no corpo da nova dona. Ou a felicidade da menina pobre, experimentando o longo branco que outra cansou de guardar.

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