28 de set de 2012

Use e jogue fora

A máquina de lavar pratos, desde que foi trocado o disco de controle, passou a funcionar ao seu gosto, esquecendo-se inclusive de completar o serviço e desligar. Por se tratar de modelo antigo, os técnicos solicitados não mostraram o menor interesse em solucionar o problema, pela dificuldade em obter peças. O único que atendeu ao chamado olhou para ela a distancia de dois metros e, sem tocar na paciente, baseado no relato da dona da casa, diagnosticou que o dial trocado “não devia ser original”, os fios “deviam estar mal conectados, internamente”, e, pela falta de peças para o modelo antigo, a solução era comprar outra, com a alentadora previsão de que “duraria bem menos, por ser de material mais frágil”, segundo suas palavras.

Em seu discurso na Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em junho de 2012, na cidade do Rio de janeiro, o presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, proporcionou um momento de reflexão sobre o nível de consumo e desperdício das sociedades ricas.

Após elogiar a boa vontade das inúmeras personalidades mundiais reunidas, com depoimentos direcionados para a questão ambiental, a melhor utilização dos recursos naturais do planeta e a preocupação em erradicar a pobreza mundial, lembrou que a ideia de desenvolvimento sustentável é contrariada pelo consumo exagerado, característica das sociedades ocidentais e “a maior agressão ao planeta”. “Mais que a crise da água e a agressão ao meio ambiente, o problema é o modelo de civilização que nos tornamos”, falou.

Lembrou que cada lâmpada, por exemplo, é programada para durar mil horas, quando a tecnologia possibilitaria duração de 100 ou 200 mil horas _ mas a indústria precisa vender, a economia girar, por isso as lâmpadas são programadas para queimar rapidamente. Junto com o dinheiro de todos nós, diria eu, inclusive das classes menos favorecidas, em total incoerência com a preocupação com a pobreza, manifestada por todos os governantes.

Por isso, segundo o presidente do Uruguai, a grande crise não é ecológica, mas política. Somos governados pelo mercado e necessidade de consumo cada vez maior, para que a máquina da economia possa girar.

Ao ouvir as suas palavras, através da internet, veio à mente não só a lavadora de pratos, com a dificuldade para obter as peças originais, mas todos os eletrodomésticos que somos obrigados a substituir, pelo desinteresse dos técnicos em consertar, por ser mais fácil trocar as peças e cobrar bem pelo serviço, aliado ao desinteresse da indústria em continuar abastecendo as assistências técnicas com peças dos modelos antigos. Isso porque, naturalmente, é preciso criar novas necessidades de consumo, para que as pessoas continuem adquirindo bens que logo também serão substituídos.

Mas não são os eletrodomésticos os únicos vilões da história. A ideia “use e jogue fora” se estende a todas as áreas; pessoas de todas as condições sociais se rendem aos novos objetos de desejo, de peças do vestuário a automóveis. Consertar, reformar, adequar se tornou prática rara, inclusive pela escassez de profissionais ainda interessados em realizar os consertos necessários, a preços razoáveis.

Técnicos curiosos e motivados, do tipo que sente prazer em entender o mecanismo da máquina, para torná-la novamente capaz de executar a sua função, são peças raras, eles também, na atualidade. Por isso, em solidariedade à velha Brastemp, serei obrigada a pesquisar mais um pouco, antes de aceitar a ideia de trocá-la por outra.

2 comentários:

Ruthe Peters disse...

Querida Marta!

Esta crõnica , como as demais, é uma perfeição do que nos acontece.Quase tudo que comprávamos durava uma vida, assim como geladeira, fogão e outras coisas mais.No laranjal está nosso fogão e lá se vão quase 50 anos.e ele está inteiro e lindo, apenas um modelo mais antigo, porisso mudamos.
Beijos da Ruthe

Rita Corrêa disse...


"Marta!!! adorei a crônica Use e jogue fora. Parabéns e bjs da RITA."